Memorial de Josiane Coelho dos Passos

Josiane Coelho dos Passos
Porto Alegre
2008


Trajetória de uma professora: seus saberes, valores e amores

Memorial formativo apresentado como requisito parcial e obrigatório para a conclusão do primeiro módulo do Curso de Especialização em Educação Profissional Integrada à Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Para Anne Caroline,
amor da minha vida.



Amor da minha vida
Daqui até a eternidade
Nossos destinos foram traçados
Na maternidade
Paixão cruel, desenfreada
Te trago mil rosas roubadas
Pra desculpar minhas mentiras
Minhas mancadas
(LEONI, Trecho da música Exagerado)



I - APRESENTAÇÃO

Em abril de 2008 surge uma necessidade em meu caminho, a escrita de um memorial formativo para ser entregue ao final do primeiro módulo do Curso de Especialização em Educação Profissional Integrada à Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Mais precisamente no dia cinco de abril o professor Alexsandro dos Santos Machado, o qual estava substituindo o professor Rafael Arenhaldt, instigou-nos a iniciar a escrita do referido memorial.
Nesta fase da minha vida, na qual trabalho 60 horas semanais e participo deste curso de especialização nas sextas-feiras e sábados, preocupam-me as "mancadas” que posso estar cometendo com a minha filha. Nos tempos que posso dedicar-lhe, procuro acarinhá-la e demonstrar o imenso amor que tenho por ela, participando de suas brincadeiras e me deliciando com suas histórias.
Através da escrita deste memorial, enxerguei em minhas mãos a possibilidade de contar a minha trajetória à Anne, meus saberes, amores e valores, transformando assim, a falta de tempo em herança de amor.
Portanto, para elaborar o presente memorial levei em conta as condições, situações e contingências que envolveram os relatos aqui expostos. Procuro destacar os elementos que, marcados por coerências e incoerências e por meio das relações estabelecidas com o mundo, possibilitaram a construção da minha vida privada e profissional.
Além de considerar esse memorial auto-avaliativo, acredito que ele acaba se tornando um instrumento confessional de meus sonhos. E por dedicá-lo a ti, minha filha, quero dizer-te que ao contar a minha história, penso estar narrando fatos verídicos, mas se não for bem assim ... digo-te que é assim que a vejo, porque como trata Paulo Freire:
Quem observa o faz de um certo ponto de vista, o que não situa o observador em erro. O erro na verdade não é ter um certo ponto de vista, mas absolutizá-lo e desconhecer que, mesmo do acerto, de seu ponto de vista é possível que a razão ética nem sempre esteja com ele. (FREIRE, 1996, p. 14)

II - O PONTO DE PARTIDA

Mamãe nasceu em 1979, quando o nosso país encontrava-se em dificuldades econômica devido à crise do petróleo. Época em que o general Figueiredo, último presidente militar, assumia o governo do Brasil.
Sou a terceira filha de uma família de quatro irmãos – dindo Carlinhos, tia Neca e dinda Lisa. A vovó Nita e o Vovô Nito eram micro-empresários do Bar e Armazém Ipiranga, do qual tenho boas e saudosas lembranças.
Meus pais, advindos da agricultura e com pouca escolarização, precisavam adaptar-se a industrialização, a qual trouxe o comércio como conseqüência. Percebo em minha mãe uma excelente habilidade lógico-matemática e em meu pai o gosto pela leitura. Era este gosto que transformava cada noite de nossa família em um mágico protocolo. Assim que fechava a porta de acesso dos clientes ao armazém, abria-se a do nosso mundo afetivo, o da família unida.
Era preciso silêncio. O pai colocava os óculos de grau, pegava o jornal, lia-o todo, era o momento mais importante do dia. Nós aprendíamos que os adultos precisavam estar atualizados e o exemplo de vê-lo lendo nos contagiava.
Depois olhávamos o jornal Nacional, respondíamos boa noite ao apresentador, íamos para a cama da mãe ver a novela e, antes de irmos para o nosso quarto, falávamos com Deus cantando e fazendo nossas orações.
Ao revisitar esses momentos consigo depreender que a educação realmente acontece através do exemplo. Aprendi em nossas orações os valores morais, no trabalho digno, que faz levantar cedo todo dia, a certeza de que se pode construir uma família com honestidade e nas leituras de meu pai, só agora percebo, que o encantamento que sentia naqueles momentos formou-me uma pessoa apaixonada pela leitura e me encaminhou ao curso de Letras.
Quem sabe é esta a explicação da certeza pela escolha da Licenciatura em Português-Literatura. E também, pelo meu orgulho em ver em ti, filha, que esse amor pela leitura virou a herança da nossa família.

[...] nas condições de verdadeira aprendizagem os educandos vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado, ao lado do educador, igualmente sujeito do processo. Só assim podemos falar realmente do saber ensinado, em que o objeto é apreendido na sua razão de ser e, portanto, aprendido pelos educandos. (FREIRE, 1996, p. 26)

III - O INÍCIO DA TRAJETÓRIA: EDUCAÇÃO INFANTIL E ENSINO FUNDAMENTAL

Desde quatro anos de idade eu já sonhava ser professora, o que era comum para meninas na década de 80, pois tínhamos uma visão romântica acerca da profissão. Embora a sociedade atual não tenha mais essa imagem do professor, ela reina em mim, mesmo aliada a algumas angústias.
Iniciei meus estudos aos cinco anos de idade (1984) na Escola Municipal de 1º grau incompleto Lourdes Fontoura da Silva, na qual freqüentei até a 5ª série porque, naquele tempo, eram poucas as escolas do meu município que ofereciam o primeiro grau completo.
Filha, na pré-escola chamávamos a professora de tia Naiva. Chamar a professora de tia, naquele tempo, era referência de afeto e aproximação com professor. Hoje essa nomeação é considerada depreciativa, o que e eu considero correto em tempos de mal-estar docente, pois o professor não é parente e sim um profissional qualificado para receber este titulo.
A escola Lourdes Fontoura acentua a minha escolha pelo Magistério. A diretora da época, Dona Aurealícia Chaxim Bes, mãe da tia Naiva, sempre relatava que só deixaria a escola quando eu estivesse pronta para lecionar lá. Desejo que se cumpriu.
No ano que a Dona Aurea saiu da escola, deixou organizada uma turma para o meu estágio. Para ela foi uma satisfação ter me deixado na nossa escola e para mim, uma honra ter conseguido assumir o meu lugar.
Na terceira série do Ensino Fundamental a apresentadora infantil Xuxa Meneghel, a mesma que te fascina, já contagiava o país com o Xou da Xuxa. Eu era fã dela e por isso meus cadernos tinham suas fotos estampadas.
Quando somos crianças aceitamos passivamente o que a mídia nos oferece. Infelizmente, isso permanece em muitos adultos. Na minha infância, nos 80, a propaganda de massa invadiu os lares dos brasileiros através da televisão, embora ainda tivesse cunho contestatório porque a grande maioria dos jornalistas eram da esquerda.
A manipulação do povo através da mídia expandiu-se fortemente em duas décadas. O consumismo é o maior problema da sociedade atual. E a escola, produto dela, parece perdida quanto ao seu papel. Entretanto é preciso que a educação abrace essa causa e reformule sua postura, pois dessa forma, encaminhará melhor seus educandos à uma solução para esta problemática, como nos orienta Alexandre Virgínio:

A sociedade deve ser apreendida como um processo em construção. E a escola, como parte, processo e produto desta sociedade, pode ter um papel decisivo, diferenciado, porquanto mais substantivo do que vem tendo há mais de um século. Ela precisa, mais do que curvar-se ao mundo do consumo, procurar desenvolver processos de formação que possam gerar, senão recriar, indivíduos indignados, críticos e curiosos o suficiente, de forma que busquem, a partir de sua educação, uma forma democrática e cidadã de intervenção no mundo. (VIRGÍNIO, 2007, p.123)

Na Escola Lourdes Fontoura eu fazia parte de todas as atividades extraclasses: apresentações, formação de grupo de danças gaúchas, etc. Vejo que a criança participa das atividades da escola com um comprometimento nato e o adolescente traz consigo a timidez ao expor-se, porém quando se sente sujeito do processo, despe-se das desculpas e torna-se protagonista, dispensando muitas vezes, a ajuda do professor.
A primeira frustração da mãe também foi na escola Lourdes Fontoura, na quarta série. A minha professora mostrava-se autoritária para manter o domínio da turma, por isso, provavelmente eu tenha ficado com medo de pedir para ir ao banheiro. O fato é que ter feito xixi na sala de aula fez com que eu sentisse uma vergonha que parecia não ter solução.
Devido a esse fato procurei ter o cuidado encaminhar com o maior carinho e paciência a retirada de tuas fraldas e toda a passagem pela fase anal, da mesma forma como procuro fazer em todas as fases da tua vida.
Essa questão de deixar ou não, ir ao banheiro é pauta de todas as reuniões de professores. Ao professor cabe o papel de ser árbitro desse impasse. Ele deve decidir se a ida ao banheiro é necessidade fisiológica ou fuga consentida aos alunos.
Na sexta série transferi-me para a Escola Municipal de 1º grau completo João de Barro, com essa mudança tornei-me aluna grande e troquei as brincadeiras por conversas de adolescentes no recreio.
No ano em que eu concluiria o primeiro grau a grade curricular da 8ª série sofreu adaptações. A disciplina de OSPB voltou a fazer parte do currículo e a de Técnicas Domésticas foi substituída pela disciplina de Língua Inglesa, adequando-se assim, as necessidades do mercado de trabalho.
Em dezembro aconteceu a formatura. Eu, como oradora, falei em nome da turma sobre a satisfação de ter concluído essa etapa de nossas vidas. Teu pai assistiu ao evento como meu namorado.

IV – ENSINO MÉDIO: A ESCOLHA DO CAMINHO

Ao concluir o Ensino Fundamental, todo adolescente depara-se com a necessidade de escolher a profissão que almeja seguir. Eu não tive dúvidas em optar pelo Magistério, o inconveniente era saber em qual escola eu iria cursá-lo, pois em nosso município apenas uma escola particular oferecia este curso.
Próximo ao final do ano letivo a Escola Estadual de 1º e 2º Graus Rubén Darío anunciou que abriria no ano letivo seguinte, nove turmas de Magistério. Então eu me matriculei.
Anne, foi em março de 1994 a festa de 15 anos da mamãe. Esta fase da minha vida era de mudança. Nela havia novos colegas, as conversas entre nós encaminhavam-se para o mundo profissional e as nossas curiosidades eram a respeito dele.
Durante o curso de Magistério simulamos muitas aulas, analisamos muitas teorias e criticamos muitas práticas dos professores que atuavam nas escolas. O sonho de fazer diferente e assim transformar a educação nos acompanhava desde o princípio. Talvez porque fazíamos parte de um Brasil que já tinha passado por muitas mudanças e era preciso que ela acontecesse também na educação.
Acreditávamos que o Construtivismo poderia revolucionar e fazer com que nossos alunos, através de suas relações com o mundo, tornar-se-iam cidadãos mais autônomos e que nós não recorreríamos aos métodos tradicionais, nos quais os conhecimentos eram transmitidos aos alunos como se estes nada soubessem.
Pautávamos nos ensinamentos de Paulo Freire: “Ensinar não é transmitir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção." (FREIRE, 1996, p.22)
Nosso sonho não foi em vão, pelo contrário. Ele é possível, pois é o caminho para a mudança social que nosso país precisa. Mudança que, permeada na educação, partirá dos cidadãos críticos, os quais formaremos.
Embora o Construtivismo tenha sido mal interpretado pelos profissionais da educação e em muitos casos o tenham confundido com bagunça, caindo assim em descrédito, ele foi caminho para os questionamentos aos métodos tradicionais em prol de uma educação libertadora.
Em fevereiro de 1997 eu e o papai casamos. Houve uma bela festa e, após dezoito dias iniciava o meu estágio na Escola Lourdes Fontoura da Silva. Relacionei-me facilmente com a comunidade escolar, já que era conhecida por todos devido a inúmeras substituições de professores que fiz enquanto era aluna do Magistério. O estágio ocorreu tranqüilamente e foi uma experiência animadora, pois recebi bastantes elogios. Em setembro deste ano, realizou-se a formatura.
Após o término do estágio trabalhei durante três meses na Loja Paquetá de Esteio. O trabalho de caixa-crediarista foi uma experiência horrível. Eu sentia uma falta muito grande do ambiente escolar e intrigava-me a idéia de estar formada e não poder exercer a minha profissão.
As inscrições do concurso público para professores em Sapucaia do Sul aconteceram no mês de novembro daquele mesmo ano e, em 31 de março de 1998 tomei posse como professora adjunto municipal, iniciando assim, minhas atividades docentes como alfabetizadora na Escola Lourdes Fontoura da Silva e na Escola Afonso Guerreiro Lima.


V- UNIVERSIDADE: É POR AQUI QUE SE CHEGA LÁ

Há algum tempo veiculava na televisão a campanha do vestibular da Universidade do Vale do Rio dos Sinos “ Unisinos – é por aqui que se chega lá”. Realmente, a universidade é o caminho que nos conduz a uma profissão, mas mais do que isso, a um compromisso com ela.
Eu sempre sonhei em freqüentar a universidade, mas parecia-me um sonho tão distante, pois eu e teu pai estávamos iniciando nossa vida conjugal e nossa condição financeira nos impedia. Papai não concluiu seus estudos na idade adequada, por isso precisaria freqüentar as aulas do supletivo.
Embora jovens, a responsabilidade de progredir financeiramente tendo em vista um futuro promissor, nos conduzia a investir, principalmente, em educação. Então, quando eu fui nomeada em concurso público, teu pai matriculou-se no Ensino Supletivo de 2º grau e eu prestei vestibular de inverno. Assim, em julho de 1998 ingressei no curso de Pedagogia da Unisinos, porém algum tempo depois percebi que aquela área da educação não era a que eu buscava.
Ao desvincular-me do curso de Pedagogia ingressei no de Letras – português-inglês. Enfrentei dificuldade para acompanhar as aulas de inglês, já que este era um déficit da escola pública, pois esta disciplina fazia parte do meu currículo somente na oitava série e no primeiro ano do Magistério.
Era preciso que eu disponibilizasse tempo para freqüentar um curso de inglês e, em passos acelerados, correr atrás do conhecimento que não fora ensinado/aprendido.
Anteriormente eu já havia lecionado português e, nessa época, estava lecionando inglês. Apesar de ter conseguido adquirir um bom conhecimento desta língua estrangeira, com essas duas vivências pude concluir que o foco do meu trabalho é o ensino da Língua Portuguesa.
Em 2004 migrei para Letras Português-Literatura. Um curso belíssimo que junto aos aprendizados que obtive para a minha formação docente, depreendi dos personagens da literatura a interpretação da vida, porque a boa literatura é verossímil e desta forma, faz com que o leitor, sujeito do processo, compreenda a vida real.
O maior sonho das nossas vidas, minha e de papai, também se realizou durante a formação universitária. Era primavera, dia 30 de setembro de 2004, quando pela maternidade cruzou em nosso caminho a florzinha mais linda do jardim. Uma florzinha bem planejada, muito esperada e querida, que contagiou nosso lar de alegria – você, Anne Caroline, amor da nossa vida!
Na formação universitária sempre busquei as respostas para as minhas indagações de sala de aula. Fui uma universitária comprometida com o aprendizado e com a busca do conhecimento.
Devido aos sabores e alguns dissabores da vida, o tão sonhado dia da colação de grau ocorreu somente em 2006. Foi um orgulho ser aprovada com distinção pela banca examinadora do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e um prazer indescritível ser aplaudida por todos os meus amores.
Eu sempre me preocupo com teus sentimentos a respeito de ter uma mãe aluna, professora (trabalhadora) e mulher, mas acredito na educação pelo exemplo, e é nessas datas como a da minha formatura, vendo o teu gritinho orgulhoso no momento em que eu era chamada para colar o grau, que legitimo


VI- DOCÊNCIA: O PONTO DE CHEGADA

Sou professora desde 1998 na rede municipal de ensino, em Sapucaia do Sul, onde fui nomeada por concurso público, num regime de 40 horas de trabalho semanais.
No primeiro ano trabalhei como alfabetizadora em duas turmas. Em 1999 alfabetizava crianças no turno da manhã e a noite trabalhava como secretária no anexo do Supletivo Vitória, ambos na Escola Lourdes Fontoura da Silva, onde mamãe leciona até hoje.
Trabalhei até 2002 como secretária do Supletivo e também, como professora titular ou de projetos (Inglês e Hora do Conto) nas séries iniciais. No final deste ano o anexo da minha escola fechou.
Como eu já era aluna do curso de Licenciatura em Letras fui convidada a lecionar as disciplinas de Língua Portuguesa para 5ª e 6ª séries do Ensino Fundamental à tarde e Língua Inglesa para o currículo por atividades pela manhã.
Em 2004 retornei ao turno da noite, agora na modalidade EJA, como professora de Inglês e Português. No turno da tarde permaneci no ensino da Língua Portuguesa.
No ano de 2005 comecei a trabalhar em Informática Educativa com alunos de Educação Infantil à 8ª série do Ensino Fundamental e da EJA porque era preciso liberar a vaga de professora de Língua Portuguesa, pois esta seria destinada ao professor aprovado em concurso para a referida disciplina, sendo que eu havia feito concurso para séries iniciais.
Embora soubesse que a vaga de português não era minha por direito, eu já me sentia professora titular da disciplina e pensava que lecionar para crianças não fazia mais parte da minha carreira. Então assumi o Laboratório de Informática Educativa da escola porque acreditava que assim poderia utilizar dos meus conhecimentos da língua portuguesa, manter contato com os adolescentes e também aproximar-me novamente das crianças.
Essa atuação no Laboratório de Informática é enriquecedora, pois a tecnologia envolve os alunos e desperta sua curiosidade para a aprendizagem. A web utilizada com criticidade facilita com que o aluno exerça sua capacidade de aprendizagem, como trata Paulo Freire:

Quanto mais criticamente se exerça a capacidade de aprender tanto mais se constrói e desenvolve o que chamamos de ‘curiosidade epistemológica’, sem a qual não alcançamos o conhecimento cabal do objeto. (FREIRE, 1996, p.21)

No final do ano de 2006 fiz concurso em Sapucaia do Sul para professora de Língua Portuguesa. No inicio do ano letivo de 2008 fui nomeada para mais 20 horas semanais. Portanto, estou lecionando 60 horas semanais nas disciplinas: Português, Informática Educativa e Educação Artística para o Ensino Fundamental Regular e EJA.


VII – PÓS-GRADUAÇÃO: A CAMINHADA CONTINUA

Sempre tive muito medo de não poder continuar estudando, ou melhor, de não ter mais vínculo em Estabelecimento de Ensino como discente, isso representa para mim a estagnação e o atraso, este medo já me acompanhava desde o penúltimo semestre do curso de Letras.
Tenho a convicção de que uma professora competente e comprometida com o que faz busca sempre a renovação, pois nenhuma verdade é eterna, e a educação precisa ser atual.
Ao término do curso de Letras, papai e eu tomamos duas novas decisões: mudaríamos de bairro e, agora, a oportunidade de estudar seria dada a ele. Conseguimos trocar nossa casa por uma próxima ao centro da cidade e, em 2008/01, ele prestou vestibular para Administração de Empresas pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA). Lembra da faixa de bixo que colocamos para ele, Anne?
Felizmente, como nada nessa vida é por acaso, desemboca em meu caminho o curso de formação de professores da EJA, promovido pelo SENAC e ofertado pela prefeitura municipal, no qual eu e meus colegas fomos informados do edital de seleção para a Especialização em Educação Profissional Integrada à Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos da UFRGS.
Depois de selecionada pude prosseguir meus estudos. É para ti entender filha que tudo o que desejamos e nos determinamos a conseguir, certamente fará parte da nossa vida.
Tenho interesse em desenvolver meu curso de pós-graduação na linha de pesquisa “Realidade como ponto de partida para ensinar e aprender”. Um possível título para o meu problema poderia ser o seguinte: “Escolarizar o cotidiano dos jovens e adultos: uma armadilha”.
O termo “armadilha” é proposital, pois pretendo problematizar a corrente que se tornou em nossas instituições de ensino o pressuposto de que, para desenvolver os processos de ensino e aprendizagem, precisamos valorizar os saberes do sujeito e da sua comunidade. Orienta-se que uma prática pedagógica de qualidade parte da realidade na qual o aluno vive e trabalha o que se reflete com maior intensidade e recorrência na EJA.
Para Paulo Freire “a leitura de mundo precede a leitura da palavra”, o que nos faz entender que tudo o que aprendemos não está no mundo por acaso, já que o cotidiano do qual fazemos parte é histórico e cultural e marcado por lutas entre culturas que pretendem impor suas verdades. A partir disso, Clarice Salete Traversini orienta para dois aspectos:

Como temos significado a prática de ‘partir da realidade’ para ensinar e aprender na educação de jovens e adultos? Que parcelas da realidade têm sido selecionadas ou privilegiadas para integrar os currículos ou as propostas pedagógicas para jovens e adultos? (TRAVERSINI, 2004, p. 97-105)

Tenho como hipótese o fato de partimos de um saber cotidiano do sujeito ou da comunidade para motivar o discente, porém, depois, enquadramos o saber na lógica escolar. Traversini chama essa nossa intenção de “isca” para mobilizar os alunos porque qualquer saber trazido à escola precisa ser enquadrado nela.
A realidade, o cotidiano, ou, para dizer de outro modo, o currículo, a cultura e o espaço escolar devem ser propostos como ferramenta para construir um processo educativo menos escolarizante. Tentar novas metodologias, outras maneiras de ensinar e aprender. Dessa forma, dificilmente serei a mesma docente, pois a diferença e a multiplicidade oferecem muitas possibilidades para que eu continue trilhando no caminho do conhecimento.
Minha filha amada! São as possibilidades que encontramos e criamos em nosso caminho que nos que nos levam a algum lugar. A minha trajetória não é merecedora de horário nobre, ela pertence à vida real. Uma vida de sonhos e de lutas, que muito me orgulho em te contar porque desde 2004 tu caminhas junto comigo.
Que o meu desejo por um mundo mais fraterno e justo possa fazer parte da tua realidade. Quero que saibas que independente das escolhas que fizeres em tua trajetória, ela está unida a minha pelo elo do amor, o maior do mundo!
Te amo!!!



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia a autonomia – Saberes necessários à prática educativa. 33. Ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

TRAVERSINI, Clarice Salete. Partir da realidade. Será que algum dia voltaremos? Anais do IV Simpósio Nacional de Educação: Políticas de Professores no Brasil. v.1. Frederico Westphalen: URI - Universidade Regional Integrada do Alto do Uruguai e das Missões.

VIRGÍNIO, Alexandre Silva. Ser professor em tempos de mal-estar na modernidade. In: SCOCUGLIA, Afonso Celso (org.). Educação no tempo presente: práticas e reflexões. São Leopoldo: Oikos, 2007, p. 114-153.

2 comentários:

Eduardo Paulo Roratto disse...

Parábens o seu memorial é incrível...

Anônimo disse...

Fiquei emocionada com tua historia, e por tido o privilegio, de conviver com esta pessoa tão maravilhosa.Em meus sonhos, a Aurealicia virou anjo vestida em uma capa rosa...