Memorial de Josenara Nunes

MEMORIAL FORMATIVO
Josenara Nunes, junho de 2008
PROEJA, UFRGS – Porto Alegre


O presente Memorial Formativo é parte dos requisitos avaliativos do primeiro módulo do curso de Especialização em Proeja – UFGRS/2008, e apresenta a série RECORTES de minha trajetória profissional. Base de meu ser docente atual.



Após a descoberta da vocação, uma luta de 20 anos até a conquista do tão sonhado DIPLOMA, em dezembro de 2005.
Em março de 1985 ingressei no curso de Pedagogia, na UPF – Universidade de Passo Fundo/RS. Em outubro do mesmo ano, nasceu meu filho André. Nesta época, recém-casada e longe da família, morava então, em Passo Fundo, as dificuldades começavam a surgir. Dificuldades advindas da inexperiência por ser mãe pela primeira vez e também de cunho financeiro. Neste momento, a faculdade e a carreira profissional, deixaram de ser prioridades em minha vida.
O aprendizado que tive com meus filhos muito influenciou em minha formação atual. Muitas vezes refleti sobre seus aprendizados, revi as maneiras com que me expressava, o real sentido da comunicação, que embora fosse um aprendizado caseiro, não deixava de ser rico e consistente. A postergação de um sonho. A convicção de uma necessidade: ser mãe em preterimento de ser estudante. Uma opção consciente. Dois amores contraditórios.
O início da grande descoberta, PAIXÃO DE SER PROFESSORA – Instituto de Educação General Flores da Cunha, Porto Alegre, março de 1978ha, Porto Alegre, março de 1977, curso de Magistério. Digo início, porque ingressei neste curso por sugestão da minha mãe que “queria ter tido a oportunidade de estudar mais e ser professora, mas como tive que trabalhar cedo para ajudar em casa, não pude realizar este sonho”. Nesta época sentia-me desmotivada, desiludida com os estudos, não queria continuar. Aceitei a sugestão.
Aqui aprendi muito sobre Piaget, Rousseau, Sócrates e Aristóteles. Assisti Macunaíma, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Chica da Silva. Li e encenei Dom Casmurro - como sua mãe.
Conheci Sociologia, uma disciplina que me encantou e me fez conhecer um mundo diferente ao visitar uma favela – que nem sabia o que era, e desenvolver uma pesquisa fascinante, descobrindo o verdadeiro sentido das palavras: discriminação, marginalidade, sobrevivência e valores sociais.
Era tempo de ditadura, falar o que pensa, nem pensar. Algo difícil para alguém tão crítico como eu.
Aulas de francês vieram acrescentar um look clean ao meu currículo.
Aprendi como fazer pesquisa, entrevista e descobri que os portugueses não tinham descoberto o Brasil. A história não era bem assim, mas ninguém explicava muito. Choquei-me com a notícia, afinal ia contra tudo o que tinha aprendido e decorado, até então.
As metodologias entraram em minha vida com uma fluência que pareciam já pertencer-me, sem cerimônia. E assim, fui me apaixonando!

Em agosto de 1978, conversava sobre alfabetização, com minha “mãe Preta” - assim que me referia a empregada doméstica de raça negra, que me criou e a quem me afeiçoei. Nesta conversa, descobri que ela não sabia ler nem escrever. Perguntei-lhe se não fazia falta, o que ela prontamente me respondeu, “não faz não, já tenho meus filhos criados e estou velha. Meus filhos vão no colégio e sabem ler e escrever, vão ser alguém na vida. Eu já vivi muito”. Perguntei-lhe então se não gostaria de aprender e se fosse aprender, se teria algum motivo específico, ao que ela respondeu-me, ”Ah, querer até queria pra poder ler as receitas de crochê”. Como em minha ingenuidade adolescente não entendi, pedi que me explicasse melhor. “É que eu só sei fazer o ponto básico de crochê e faço os guardanapos pra vender, se puder ler, posso fazer modelos diferentes, vender mais”. Aqui entendei a questão. Há algum tempo atrás, havia-lhe ensinado o ofício do crochê, que aprendi com minha avó, em aulas sistemáticas e semanais. Ela então começou a fazer jogos de guardanapos para vender, mas eram todos do mesmo modelo. Estava “enjoada” de fazer sempre a mesma coisa.
Senti-me desafiada e busquei em meus recentes aprendizados - métodos ou meios, para ajudá-la. E foi com muito orgulho, e utilizando o tradicional “Vivi viu a uva” que algum tempo depois - que não saberia precisar agora quanto, minha mãe Preta estava lendo receitas de crochê. O mais incrível é que os novos jogos de guardanapos vendiam muito e ela já quase não dava conta das encomendas. Passava o tempo todo “crocheteando”, como ela dizia. Sua vida melhorou, ajudou muito na ampliação de sua renda familiar e me lembro das muitas vezes que ela me agradeceu pelo aprendizado.
Ivone, minha mãe Preta, foi a primeira pessoa que alfabetizei e que me fez compreender, o que para mim era até então algo corriqueiro, o verdadeiro valor da leitura e da escrita. Creio que foi a primeira pessoa que me levou a refletir sobre o real sentido do ser professor, do ensinar e aprender.
Minha primeira experiência profissional. Professora de Educação Infantil, no maternal II. - ano de 1979. Ingressei por insistência, cursava o segundo ano do magistério, mas necessitava explorar e aplicar o aprendido até aqui. Conheci e me apaixonei por Maria Montessori. O legado deixado por ela e por Piaget, muito presente em seus escritos, me levou a entender melhor o desenvolvimento infantil bem como suas etapas.
O respeito ao meio, a necessidade de se conhecer para interagir com ele, explorando-o de maneira cotidiana, como algo óbvio, pertencente ao dia-a-dia. Um aprendizado voltado única e exclusivamente ao desenvolvimento do ser, respeitando as etapas em que se encontra e suas reais necessidades. Fui uma boa aluna. Ao final de um ano já era regente de classe. Fiz curso de espacialização no método Montessori e em janeiro seguinte – atuei como palestrante. Aprendi rápido e me apaixonei mais ainda. A diversidade das aulas, o desafio de levar o aluno a sua autonomia, não interessando a idade, mas o Ser. Me fascinou!
Nesta época estudei muito sobre dificuldades de aprendizagem, déficit de atenção e outros distúrbios da aprendizagem.
Maria Montessori foi uma precursora para sua época. Primeira mulher médica, mais que isso, primeira pessoa a desenvolver metodologia específica para trabalhar com crianças excepcionais e que, devido ao sucesso do método, redirecionou-o para as crianças normais. Mais uma vitória. Desenvolveu o mobiliário baixo para que as crianças pudessem firmar-se ao chão quando sentadas, mantendo um equilíbrio, fixando melhor a atenção, entre outros legados.
Trabalhei neste estabelecimento até dezembro de 1983., em classes de jardim II e jardim IV (pré-alfabetização). Aprendi o conceito ser diferente.
Em 1984, então moradora de Passo Fundo, conheci o projeto Mobral. Nesta época este projeto era direcionado tanto a adultos como a crianças. Como não tinha experiência com adultos, fui designada como professora de pré-escola, na creche Berço do Bebê, no bairro São José - que lá existe até os dias de hoje.
Aprendi o conceito de solidariedade, compaixão, desigualdade, sujeira, fome e pobreza. Conheci o famigerado piolho. Ali aprendi que para ser professora e conviver com algumas crianças carentes era necessário dar banho, fazer a merenda e dar carinho. A maioria daquelas crianças só recebiam esta atenção ali mesmo. E o que é mesmo ser professora? Naquelas horas e ainda hoje, me pergunto, de que adianta tanta filosofia? Se a fome, a miséria e os piolhos não sabem ler. Mas enfim, não dá para desanimar.
Em 1985, meu marido pediu que parasse com este trabalho “por não render nada”. Como dependia financeiramente dele, parei.
Este foi meu primeiro trabalho como voluntária. Um verdadeiro marco em minha vida profissional. Nesta época conheci Débora, uma menina tão linda quanto sujinha. De olhos redondos, muito curiosa e que carregava consigo mais três irmãos de cabelos branquinhos. Ela morou comigo alguns anos depois, e até hoje temos contato. Parou de estudar por algum tempo, mas hoje já concluiu o ensino médio.
Apaixonei-me pelo trabalho voluntário. Não parei mais.
A faculdade de Pedagogia até aqui era presente em minha vida - aos pingados, é bem verdade, mas esforçava-me ao máximo para concluí-la. Este foi o último semestre que cursei, até o retorno em 2003.
Neste ano o professor Agostinho Böth era meu professor e nos encantou com seus ideais a respeito da terceira idade. Instigou-nos a um olhar diferenciado ao idoso e nos convenceu a nos embrenharmos com ele naquele sonho. E lá fomos nós ajudá-lo na organização daquele seminário, que mal sabíamos nós, seria o pioneiro de um trabalho com repercussão tão ampla como os Daati, criados posteriormente pelos municípios. Que trabalho lindo!
Como fui criada e educada por minhas avós, tinha alguma afinidade e respeito com os idosos. E era justamente isso que o professor Agostinho queria desmistificar, o idoso como cuidador. E lá fomos nós, acompanhar alguns idosos que se aventuraram a sair de casa sozinha, para ouvir o que aquele idealizador pioneiro tinha a dizer para eles a não ser, ficar em casa cuidando dos netos, pois já viveram a vida, e nada mais tem a aprender, nem a viver.
Mais uma vez um aprendizado inusitado. Até hoje se tenta implantar no currículo da Pedagogia uma disciplina direcionada ao idoso. A conquista de se incorporar ao currículo a disciplina de Educação de Jovens e Adultos foi um marco. O idoso pode esperar.Um grande mestre como referencial ao meu aprendizado como professora: respeito, luta, segregação, valores morais.

Sempre tive dificuldade em entender duas coisas: porque as pessoas não gostavam de negros e como é que algumas pessoas viviam sem saber ler?
Como já disse anteriormente, fui criada por minhas avós e por uma negra maravilhosa. Eu as amava muito. Não fazia diferença entre elas. Embora minha mãe me proibisse de brincar com negros, dizia que eram seres inferiores e nada tinham a ensinar, só serviam para a cozinha, não os via assim. Acredito que por ter um senso muito crítico e não compreender como alguém que me cuidava com tanto zelo e me dava mais atenção que minha própria mãe, não poderia ter valor. Uma verdadeira incoerência. Ensinamento que, graças a Deus, não trouxe comigo. Talvez esse aprendizado tenha servido para ver meus alunos como iguais.
Esta é Valda. Empregada doméstica da minha casa contratada após a aposentadoria da minha mãe Preta, em 1982.
Certo dia, ao ver Valda lendo o jornal, perguntei-lhe o que tanto lia, pois sempre que tinha uma folga, pegava o jornal. Para minha surpresa ela me olhou e falou que só olhava as letras e nunca tinha aprendido a juntá-las. Olhava o jornal para ver se conseguia aprender. Nossa, para mim foi um choque. Como é que podia alguém trabalhar sem saber ler? Que incoerência. Perguntei-lhe então, porque não freqüentava a escola noturna, naquela época – 1983, já existia o Mobral. Ela alegou ter vergonha de ir à escola sem saber nada. Poderiam rir dela. Perguntei-lhe então, para que, naquela altura da vida, lhe serviria a leitura, ao que ela respondeu “para no dia que comprar minha casa poder ler o contrato e entender sem ninguém me enganar”.
Ensinei Valda a ler. Em 1984, ao visitar meus pais, deparei-me com ela, livros embaixo do braço e me surpreendi, ao mesmo tempo em que senti-me gratificada quando me respondeu que estava cursando o supletivo.
Em 1990, Valda comprou sua casa própria, cursava o supletivo do Segundo Grau e me disse muito feliz “li todo o contrato de compra e venda”. O aprendizado de Valda assim como de Ivone foram os primeiros em minha vida como alfabetizadora, mas certamente foram os mais significativos. Embora tenham acontecido de maneira aleatória, sem compromisso aparente, foi um grande aprendizado, um verdadeiro referencial.
Voluntariado, uma palavra, muitos significados.
Até aqui o meu envolvimento com o voluntariado havia sido algo aleatório, de acordo com a ocasião. Pois bem, neste curso, em 2002, quando regressei a Porto Alegre, quis aprofundar este tema que tanto me despertava curiosidade. Necessitava entender mais, conhecer mais.
Conheci voluntários e lugares que desenvolviam este trabalho como: o GAPA – que cuida das Dsts, sociólogos preocupados com os papeleiros – a conhecida Vila Tripa, o Instituto do Câncer Infantil – e seus famosos tijolinhos, e também conheci trabalhos menos penosos como o Jardim Botânico, a Biblioteca Pública. Mas creio que o que mais aprendi foi: solidariedade, amor, doação, empenho e seriedade.
Conheci pessoas que ali estavam porque queriam estar e se preocupavam com o outro que precisava deles, e mais que tudo, tinham algo a oferecer.
O trabalho voluntário neste momento fez minha vida ter um novo sentido. Uma nova visão de mundo. Um mundo a ser desbravado, estudado, atendido.
Inscrevi-me para desenvolver trabalho no Hospital do Câncer Infantil – junto ao Hospital de Clínicas/POA, mas quando me chamaram, fui nomeada no estado, e retornei a Passo Fundo. O novo olhar sobre o desprovido. Novos meios de aprendizagem. Nem todos aprendem a mesma coisa ao mesmo tempo. Um respeito ao tempo de cada aluno.
Novamente o analfabetismo presente em minha vida.
Ao reingressar na universidade, em 2003, reencontrei uma professora que em muito me serviu de modelo a ser seguido, a Professora Doutora Solange Maria Longhi. Nesta época, entre outras atribuições, coordenava o grupo de pesquisa Alfa.analfa, na Faculdade de Educação, da UPF, que estudava o alfabetismo e analfabetismo entre jovens e adultos na região centro-norte do Rio Grande do Sul.
Este trabalho em muito me acrescentou como aluna e professora. Conheci e pude trocar idéias com Alceu Ravanello Ferraro (UFRGS), Ricardo Rossato (IBGE), Adeum Sauer (Undime), Gaudêncio Frigotto (UFF/RS) e Marlene Ribeiro (UFRGS) entre outros.
Além das pesquisas, como pesquisadora voluntária, trabalhei como apoiadora em seminários e eventos promovidos pelo grupo, além das reuniões semanais para socialização do coletado e debates pertinentes.
Um trabalho que muito me fez refletir sobre a necessidade de estar no meio ou se pertencer a ele. Qual é a verdadeira vertente da relação de pertencimento?
O estar sempre engajada, atuante e atualizada se faz necessário à formação docente e, porque não dizer, indispensável.
Em 2002, retornei a Passo Fundo, nomeada pelo estado, designada para uma escola rural. Nossa, que desafio. Até então só havia desfrutado de zona urbana, sem barro, sem borrachudo, sem lavoura e principalmente, com muitos vizinhos. Um verdadeiro desafio. Nos quatro anos que passei lá, tive ensinamentos que acredito, foram fundamentais na minha formação.
O primeiro deles foi o respeito à diversidade cultural. Vi-me obrigada a usar você, pois o tu fazia muita confusão para as crianças, como “Tu fizeste?” Ao que respondiam “Eu fizeste”. E achavam lindo aquele novo jeito de se falar. Queriam muito aprender. O mais utilizado por lá era o nóis fumo (nós fomos), fizemo e assim por diante. Foi então que li o livro Preconceito Lingüístico (Bagno, 2004). Meu primeiro aprendizado foi aprender/ensinar a diferença entre a linguagem que se fala e a linguagem que se escreve norma culta e norma coloquial. Aprendi muito.
Aprendi a trabalhar com alunos que saíam de casa às 6 horas da manhã para chegar à escola às 8 horas. A respeitar alunos que chegavam cansados, pois já haviam percorrido 3 km para chegar à escola, e eram os mais assíduos. E assim nossas diferenças foram se dizimando. Muito tinha a ensinar, mas quanto tinha a aprender! Lá professora era senhora. Aluno levantava a mão para falar, mas falava muito. Era criança normal. Aprendi um novo jeito de ensinar sobre animais na 2ª série, a trabalhar com animais vivos. As crianças mesmo traziam e exploravam e explicavam as diferenças. Davam uma verdadeira aula. Uma realidade bastante diversa. A maioria levantava cedo e junto com a família ia para a lida no campo. Embora morassem longe uns dos outros, quando um precisava o outro atendia. Encontravam-se todos os finais de semana na missa. Colocavam as prosas em dia. Pessoas simplesmente maravilhosas e humanas.
Desenvolvi juntamente com a direção da época, o projeto Redescobrindo o Meio. Era voltado para o aluno do campo, para que aprendesse a lidar no seu entorno e assim permanecer nele, visando diminuir a evasão rural. Enquanto estive com a coordenação deste projeto e desenvolvendo com os alunos de 4ª à 8ª série seus conteúdos, o projeto obteve êxito. Digo enquanto porque, infelizmente, ao iniciar o ano de 2008 a carga horária destinada ao projeto foi cortada pelo governo. Uma lástima.
Nesta escola fiz o estágio de Pedagogia e desenvolvi muitos outros projetos como: A Literatura e nossa Herança Cultural (através de trabalhos de Monteiro Lobato), SOS Pinheirinhos (em parceria com a Faculdade de Geografia/UPF), Passo Fundo – ontem e hoje, As diversas formas de ler o mundo, Brincando de fazer brinquedo (Reciclagem e meio ambiente).
Aprendi a trabalhar com projetos. Nesta época, prestei vestibular e retornei à faculdade de Pedagogia. Conheci ferrenhamente Paulo Freire, Sacristan, Esteban, Gaudêncio, Lippman, Aluísio Azevedo. Transportei-me aos experimentos de Vigotski (2005) quando fala das ferramentas de mediação entre o sujeito e o meio. Senti-me a própria ferramenta. Atuei ainda, nesta escola como membro do CPM, por duas gestões e membro do Conselho Escolar.


Uma realidade possível


Um sonho a ser realizado. Ajudar ao próximo com o que me é mais palpável, que está ao alcance das minhas mãos, partilhar o conhecimento. Este trabalho surgiu a partir da contextualização de comunidades carentes próximas à minha residência.
Assisti ao nascimento (político) destas comunidades e senti a necessidade de contribuir para a melhoria de sua qualidade de vida.Ao iniciar o trabalho na Comunidade do Sétimo Céu – vila de papeleiros invasores, junto aos terrenos da CESA, em Passo Fundo, tive o apoio da Pastoral que me apresentou à esta, quando então, pude expor minha proposta.
Iniciei as atividades nesta comunidade com classe de Alfabetização de Adultos, pelo programa Sesi – Por um Brasil Alfabetizado, na garagem de um morador. Esta que aparece. Com o passar do tempo convenci-o a montar ali, uma biblioteca comunitária, já em desenvolvimento em outra comunidade próxima, mas não amistosa o suficiente para absorvê-los.
Duas comunidades carentes e rivais. Com realidades tristes, onde droga, tráfico, prostituição, miséria, roubo e presídio eram uma constante em seu vocabulário e dia-a-dia.
Um grande desafio. Um grande amor.
Para entrar tem que ter permissão do manda-chuva, autorização mesmo.
Em todo o tempo em que trabalhei nesta comunidade seja nas aulas ou na biblioteca, nunca enfrentei problemas. Certa vez o mandão chegou a me abordar perguntando como estavam as aulas e dizendo que iria começar a estudar, ao que lhe disse que sempre haveria lugar para quem quisesse. Nunca apareceu e nem mais o vi por perto. Meus amigos me chamavam de doida por freqüentar esta comunidade à noite, com apenas esta entrada. Não me arrependo. Colhi muitos frutos e creio que eles também.


Sesi - Por uma Brasil Alfabetizado


As aulas que vão até o aluno são 100% desafiadoras.
O desafio começa na busca pelos alunos, de casa em casa, contextualizando-os e buscando argumentos que lhes convençam da necessidade de voltar aos bancos escolares, mesmo que de maneira informal. Quase sempre alegam que já viveram bastante, já estão velhos, que o estudo fique para os jovens.
A maioria dos adultos analfabetos ou semi, não retornam às classes tradicionais por dizerem-se envergonhados de sua ignorância acadêmica. Não querem se expor ao ridículo de errar na frente de jovens.
O maior desafio deste programa creio que seja justamente a formação da turma e a luta pela não evasão.
Esta turma ao lado é da Comunidade Santa Rita de Cássia (salão paroquial) e a de baixo da Comunidade do Sétimo Céu (garagem do Sr. Agenor), ambas no bairro Petrópolis, em Passo Fundo/RS.
São solidários, mas não se misturam.
Atuei como professora alfabetizadora por dois anos consecutivos. O que aprendi com aqueles alunos me rendeu muitas risadas, tristezas e espírito de solidariedade. Eles sabem de suas carências, cresceram com elas e lutaram contra elas uma vida inteira, mas sabem ser solidários. Dividem o pouco que tem com quem não tem quase nada. Trabalham, de graça, para arrecadar alimentos, roupas e até fazer mutirão para quem tem menos. Preocupam-se, principalmente, com o futuro das crianças, já trabalharam, já criaram seus filhos, seus netos. A vida está no fim.
Mas mesmo com este sentimento que por vezes parece cruel, seguem vivendo, fazendo o churrasquinho, tomando a cervejinha, ou a branquinha. Se reúnem com os amigos e, é claro, não pode faltar o chimarrão na beira do fogão à lenha com a patroa no final do dia, pra pôr a prosa em dia.
Os visitantes são sempre bem-vindos, bem recebidos embora com certa curiosidade para saber o que querem deles.
Certamente têm muito a ensinar. Que bom que existem e pertencem ao meu mundo!
Atualmente trabalho com turmas de 4ª série na Escola Albatroz, Osório/RS. Desenvolvo projetos de maneira interdisciplinar. Minhas aulas de forma alguma conseguem ser tradicionais, estanques, findas em si mesmas. Estou sempre procurando notícias, links de interesse da turma, a partir de suas próprias falas, mesclando-os com os conteúdos necessários ao seu real entrosamento com seu meio e a sociedade em geral.
Creio que seria pouco o espaço para falar de meu trabalho atual, afinal é fruto de uma longa jornada, como vista até aqui.
Aprendi na faculdade a real necessidade de se registrar as aulas para uma posterior reflexão, reciclagem, crítica, remodelagem e avaliação. Assim, pelo segundo ano consecutivo desenvolvi um fotoblog onde registro os trabalhos que considero relevantes para os projetos que desenvolvo com as duas turmas. O endereço é: http://diario.escolar.virtual.nafoto.net/, complementado pelo blog: http://josenaranunes.zip.net/.
Ao elaborar este memorial repensei muito minhas práticas e aprendizagens. Minha trajetória foi vasta em experiências diversas. Minha paixão por ser professora aumentou muito durante o percurso, apenas sinto que a educação seja politizada e por vezes, menosprezada, desvalorizada e até ridicularizada. Temos em nossas mãos, diariamente, crianças ou adolescentes cada dia com menos referenciais, adultos sérios que os orientem, os apóiem, lhes dêem a mão e digam “vem este é o caminho, é por aqui que vais chegar onde pretendes”. Muitos nem sabem se querem chegar a algum lugar, sequer se questionam se existe outra opção.
Sei que tenho muito a colaborar e não me sinto parada no tempo, nem estagnada em meu aprendizado, apenas me considero em transição. A partir desta Especialização pretendo seguir para o Mestrado e o Doutorado. Tenho muito para dar, mas mais ainda para aprender.
Encerro meu memorial, ilustrando o caso de Lucas, que para mim, simboliza o que Paulo Freire tão sabiamente diz sobre ação-reflexã-ação.
“Lucas é um menino de 9 anos, morador no interior, zona rural. Não tem luz em sua casa, apenas um ponto de água – na rua, e tem uma patente no quintal. Tem um irmão menor e seus pais são analfabetos.
Lucas veio para minha turma em 2005, 2ª série, lia silabicamente, apresentava dificuldade de compreensão – respondia qualquer coisa sem nexo, apenas para participar. Gostava da lida do campo e de uma boa prosa. Escrevia como lia e sem nexo. Escritas soltas. Não gostava de levar livros de histórias para casa e quando levava normalmente não os lia. Certo dia perguntei-lhe porque, ao que ele respondeu – é que escondo no meio da roupa senão minha mãe põe no fogo. Comecei a estudar o caso mais de perto. Após a contextualização acima, perguntei-lhe o que fazia em casa à noite. Lucas me respondeu que ficava à beira do fogão à lenha conversando com seus pais, iluminado por lampião – à querosene professora, é mais barato. Foi então que lhe propus que levasse um livro, de poucas palavras, e lesse para seus familiares. No outro dia Lucas voltou frustrado, a mãe não o deixou ler, disse que não sabia. Continuei insistindo, mas percebia Lucas cada vez mais desanimado. Acabei desistindo e resolvi estudar outra estratégia. Passado mais ou menos um mês, percebi que Lucas havia melhorado na leitura, estava mais falante e começou a trocar livros na biblioteca, quase todos os dias. Certo dia, como não havia professor responsável para atender a biblioteca, Lucas me pediu um livro sobre reciclagem Na hora não entendi o pedido. Ele então insistiu, mas professora, meu pai pediu pra eu levar um livro que tenha coisa de reciclagem. Ele quer aprender.”
Neste momento entendi Paulo Freire. Um menino de apenas 9 anos mudando a história de toda uma família, um verdadeiro instrumento com capacidade para mudar o mundo a sua volta. Como professora me senti realizada.
Este é para mim o maior desafio de ser professora e por isso acredito na necessidade formação continuada do profissional da educação, no trabalho voluntário e na troca de experiências.
Sempre digo que sou um grãozinho de areia no deserto, mas me sinto como uma montanha.

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