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Memorial de Letícia Gomes Farias


Imagens de uma vida
Letícia Gomes Farias [1]

“O além exige a mediação de um aquém. Sem um fundo de invisível, não há forma visível. Sem a angustia do precário não há necessidade do memorial. Os imortais não batem fotos entre si. Deus é luz; somente o homem é fotografo. Com efeito somente aquele que passa e sabe disso quer permanecer.” (Regis Debray, 1994)

O Demônio e a “Menina Pobre”

Sempre achei interessante como as pessoas descrevem seu ingresso no mundo das Artes Visuais.
É quase sempre muito semelhante, nascem em famílias de artistas, ou de pessoas que gostariam de ser artistas. Crescem rodeadas de arte em todas as suas formas e em algum momento descobrem-se irremediavelmente contaminadas pelo ‘fazer arte’.
A primeira pintura que vi, não posso precisar a quanto tempo, nem sequer era uma pintura e sim uma reprodução barata, que só me chamou a atenção, após determinado que teria um fim trágico: seria queimada a coitada, pois segundo a minha tia, abrigava o demônio.
Nunca havia prestado atenção, naquele único ornamento das paredes de minha casa, até saber que nas vestes da menina chorosa, escondia-se ninguém menos que o próprio satanás que a estava devorando.
Lembro-me de olhar por todos os ângulos a tal “Menina Pobre” (suposto título da tela) e ainda assim, não enxergar nenhum capeta. Vi apenas as dobras do tecido, cuidadosamente montadas em uma seqüência de linhas, coberta por camadas de cores escuras em degrade com camadas mais claras.
Presenciei até o último minuto, o triste fim da “Menina Pobre”, na secreta esperança de finalmente ver o capeta levantar-se das chamas.
Naquela semana (que deve em muito ter contribuído para o aquecimento global) vários outros “meninos e meninas ricos ou pobres”, todos do mesmo autor, foram também incinerados.
Somente na minha rua presenciei cinco execuções e para minha decepção em nenhuma vi o capeta.
Desconheço até mesmo o nome do autor da obra que deu origem aquelas reproduções que enfeitavam a casa de quase todo mundo que eu conhecia na época, mas dessa história jamais esqueci.
Depois da interessante convivência com o demônio, que segundo minha tia, morou conosco por anos dentro daquele quadro, minha casa não teve mais ornamentos, nenhum tipo de objeto artístico e talvez por isso me seja tão presente a imagem daquela menina, com as lágrimas escorridas, como que a implorar diante de um trágico fim.
Não tenho dúvidas de que esse foi meu rito de iniciação em arte e foi forte o suficiente para abrir meus olhos e fazer modificar minha maneira de ver todas aquelas reproduções de vida que rodeavam meu cotidiano, em livros, revistas ou mesmo na televisão.
As imagens de minha vida se confundem em minha memória com as imagens que perpassaram meu caminho, às vezes não sei diferenciá-las, visto que ambas foram captadas pela mesma fonte, percebidas pelo mesmo corpo e quando significadas, interagiram na minha noção do real.
Em muitas dessas imagens encontrei lições, lembretes, avisos.
Em muitas encontrei consolo...
Em algumas até me encontrei.
Não sei se escolhi a arte ou fui escolhida por ela, mas ainda procuro, com o mesmo fascínio, em cada objeto artístico o demônio que eu jamais enxerguei.

Um defunto multidões em lágrimas

Sempre fui meio vampiro, gosto quando o sol se põe...
Não gosto de acordar cedo, não gosto das manhãs, nem sequer acho bonito o nascer do sol...
Me doem os olhos, que acometidos pela hipermetropia, insistem em ser sensíveis.
Por mim dormiria de dia e acordaria a noite.
Mas o que fazer, se o horário da escola não concordava comigo?
Dormia o máximo que podia até que alguém resolvesse me chamar e insistir, sem muitas delicadezas, para que eu levantasse.
Gostava da escola, apesar daquele banheiro fétido, que me fazia segurar o xixi até voltar pra casa.
Confesso que não gostava muito dos gritos constantes das professoras e de estar sempre no alto da lista dos mais agredidos pelos colegas. Porque será que sempre que se tem de se eleger um saco de pancadas as meninas tímidas, sensíveis e que tiram boas notas, são as primeiras a serem lembradas?
E também tinha aquela merenda...
A merenda horrorosa continha : leite sabor morango, servido em canecas de plástico azul, nada frágeis, porém muito apegadas a suas camadas de gordura e crostas. Sorte que sabíamos exatamente de que eram as crostas, já que as canecas serviam, invariavelmente, “leite sabor morango”.
A iguaria acompanhava uma porção de bolachas doces que eram entregues de mão em mão. Todos ao dias.
A merendeira ainda se dava ao trabalho de dizer: “Não tem repetição!” Como se alguém fosse querer!
Tá bom, eu não gostava tanto assim da escola.
Pensando bem, eu gostava mesmo era de aprender. Tive a sorte de nascer em uma família que amava livros, herdei o amor pela leitura.
Por isso, mesmo não gostando da escola, nem dos colegas e tendo medo das professoras, aprendi a ler com extrema facilidade.
E ficava triste quando mais algum parente da professora morria (a coitada era de “família morredeira”[2], só o pai dela morreu três vezes em um ano) .
Sempre que se perdia o dia de aula, eu ficava com a cartilha na mão esperando ansiosamente a próxima letra que aprenderíamos, afinal, aprender me permitia decifrar finalmente aqueles códigos mágicos e me tornaria independente para alcançar sozinha o prazer das histórias que minhas tias me contavam antes de dormir.
Porém, naquela manhã específica algo acontecia...
Há tempos eu já fingia que dormia, esperando que alguém, (alguém muito desagradável, claro) fosse me acordar...
Ninguém vinha.
O que de tão importante faziam aquelas mulheres a ponto de permitir que eu me atrasasse e perdesse o dia de aula?
Minha mãe ficaria furiosa.
A pouco ela havia ido a escola, indignada com a declaração da professora de que em dias de chuva não precisávamos ir a aula. Imaginem quantos dias letivos perderíamos no inverno gaúcho!
Agucei os ouvidos ...
Não, nem sequer chovia.
Mas havia ao longe uns gemidos e alguns suspiros.
A voz da minha mãe, minha mãe estava em casa, algo realmente sério acontecera para que ela não fosse trabalhar.
Levantei aos poucos e fiz meu caminho habitual, da cama que dividia com minha vó, até o sofá em frente a TV.
Se algo de sério houvesse, as mulheres não iriam mesmo me contar, me restava ficar ali e tentar descobrir o que havia juntando os pedaços das conversas.
Ninguém me viu entrar, deitar no sofá cama que ainda abrigava as cobertas do meu avô e ligar a televisão.
No primeiro canal nada de Tom e Jerry[3].
Tento de novo, já deve ser hora da Formiga Atômica no outro canal.
Nada, a TV estava estranha.
Todos os canais mostravam uma sucessão de pessoas chorando copiosamente.
Paraliso naquela cena: gente parada em pé chorando, muita gente mesmo...
Em minha casa também todos estavam tristes, minhas tias choravam.
Criei coragem e perguntei o que realmente me interessava, se eu não iria a aula. Alguém respondeu:
“Não minha filha, hoje é feriado nacional.”
Lembro bem de ter pensado quando finalmente a TV mostrou a imagem do caixão rodeado por mulheres de preto: “Puxa, esse tal Tancredo além de fazer toda essa gente chorar ainda tinha de me fazer perder a aula...e justo hoje que nem choveu!

Uma lua cinematográfica

Era uma daquelas semanas em que tudo dava errado.
Aquele homem que ninguém me dizia quem era, mas que havia se mudado para nossa casa implicava comigo o tempo todo.
Eu estava triste, chorava pelos cantos e pedia para minha vó para voltarmos para casa, ou seja, para aquele lugar que por mais de 5 anos eu conheci por meu lar, a casa de minha avó em Bagé.
Minha mãe finalmente tinha conseguido as tais condições para ficar comigo.
Nunca entendi o que eram estas tais condições que ela buscava, mas sabia que deviam ser importantes, pois elas nos separavam há anos. Estavam sempre presentes nas falas de minha vó: “Tua mãe está trabalhando, lutando para ter condições de ficar contigo.”
Agora, com as tais condições tudo parecia diferente do que eu havia sonhado.
Tudo porque eu fazia muitas coisas erradas.
Meu Deus como eu fazia coisas erradas. Descobri isso depois que aquele que eu não sabia pronunciar o nome veio morar conosco e ocupou um lugar que eu não sabia bem ao certo qual era, o de fazer críticas, acho.
Minha mãe nunca me defendeu ou tentou me proteger daquele homem, penso que temia se incomodar, afinal ele era bom o bastante para aceitá-la com uma filha.
Porém naquele dia iniciou-se um ritual que se repetiria muitas vezes.
Eu nem queria ir.
Mas eu precisava ser boa, pois os bons sempre são recompensados no final... Por isso, não importava se minha mãe parecia uma perfeita estranha.
Minha mãe me enfeitou como uma árvore de natal.
Usava fitinhas, chiquinhas, tranças e meus sapatos combinavam com a bolsa de crochê.
Fingia gostar das roupas e até mesmo das odiosas bolsas de crochê.
Fui.
Não sabia onde íamos, mas fui.
Também não gostei quando chegamos.
Era um local todo fechado, com pouca ventilação.
Tínhamos que andar com cuidado, pois estava muito escuro...eu tenho medo do escuro... apertei a mão de minha mãe.
Lá dentro já havia muita gente e todos falavam baixo, cochichavam.
Era difícil não esbarrar nas cadeiras que estavam por toda parte, quem seria tão burro de espalhá-las tanto?
Sentei sob protesto, louca para perguntar quando iríamos embora.
Um ruído estrondoso e meus olhos se arregalaram.
Pela primeira vez em minha vida senti meus pensamentos silenciarem.
O turbilhão que acompanha meu cérebro incessantemente se reduziu até silenciar por completo.
Era como se eu tivesse me apagado, deixado para trás todas as coisas ruins que eu queria esquecer, agora eu fazia parte daquela grande tela.
Era mágico, eu podia viver outra vida.
Sorria sem parar, pois me senti voando junto a eles quando as bicicletas levantaram e cruzaram o céu em frente a mais esplendorosa lua que já vi, era uma sensação diferente. Diferente de ler uma história, diferente de ver algo na TV, era perfeito. Como se realmente fosse eu, cruzando os céus sobre minha bicicleta, salvando a vida de meu amigo alienígena.
Graças à maneira estranha de minha mãe de demonstrar que me amava e de me compensar pelas coisas que ela devia fazer e não fazia, eu descobri que podia ter um amigo alienígena, podia ser outra pessoa...
Podia voar...

Todo o horror de Guernica

Sobrevivei a todos os meus anos de escola, sendo socialmente excluída.
A única negra na escola pública, porém burguesa que minha mãe conseguiu para substituir a escolinha de vila onde fiz o primário; a única que não podia esconder a pobreza.
Quando não se é forte, é melhor não ser muito notado. Passei a me cuidar para não ter notas muito altas e assim não atrair a atenção das outras crianças.
Também passava meus recreios em um lugar ótimo, livre de qualquer ameaça: a biblioteca .
Pode-se pensar em um lugar melhor para passar o recreio quando não se tem dinheiro para freqüentar o concorrido bar da escola?
Era no bar que se se estabeleciam as hierarquias sociais entre os alunos, onde se mostrava o quanto se podia, o quanto se era legal, o quanto se estava na moda.
Eu não era considerada legal e também não tinha as roupas da moda, por isso devorei todos os livros do cantinho da leitura.
Claro, isso me tornava menos popular ainda, mas tudo bem, já que na letra A das prateleiras da biblioteca, descobri a Arte.
Escolhi um livro ao acaso, o mais bonito.
Vermelho, grande, encadernação de luxo, novo, parecia jamais ter sido aberto (provavelmente nunca havia sido).
Abri uma página, esperando encontrar algo lindo no senso comum de belo, o belo platônico. Talvez até algo que eu, uma iniciante pintora de guardanapos pudesse copiar.
Me desesperei com o que vi.
Em tons de cinza e preto, pinceladas regulares e geométricas descreviam seres humanos mutilados, representados em múltiplos ângulos simultaneamente. Tudo era destorcido por um geometrismo que chocou minha noção de arte mimética.
Recorri ao título do livro, tentando entender imagem tão perturbadora:Picasso e Matisse[4].
O nome da obra ali reproduzida: “Guernica”[5].
Fechei o livro, guardei-o na certeza de que não voltaria mais abrí-lo.
Tarde de mais, aquele bichinho matreiro chamado ‘provocação da arte’ já havia me enfeitiçado.
No outro dia, no recreio, corri para a biblioteca e mais uma vez me debrucei sobre aquele livro tentando entender porque motivo aquele senhor careca tão simpático que a foto da contra capa denominava Picasso, representava as pessoas daquela maneira.
Nunca mais parei de tentar entender.
Os anos passaram e meu esconderijo na biblioteca se tornou cada vez mais perfeito: Aquele era sem dúvida um local que não constava no mapa de nenhum adolescente, na verdade, só passar na frente já poderia destruir a reputação de alguém.
Eu com confirmada reputação de NERD[6] (esconder as notas nunca deu muito certo), continuei a devorar livros.
Cheguei até o Expressionismo Abstrato, na prateleira de livros de arte da biblioteca.
Infelizmente esse era o último livro, graças a Deus, também era o último ano.
Minha irmã, que ao contrário de mim, sempre foi um gênio, acabara o curso técnico de contabilidade.
Ela ia ter uma carreira. Todos achavam que ela devia prosseguir os estudos, afinal formará-se com notas máximas, era provavelmente superdotada.
Foi nesse momento que foi me introduzida a idéia de Faculdade.
O gênio, não havia visto em seu curso técnico, as matérias básicas do ensino médio, e só por isso precisou da minha ajuda quando decidiu presta Vestibular.
Em mais uma das intermináveis greves do magistério, dediquei-me a ensinar-lhe, o máximo que podia de matemática, física, química e biologia.
Fiz o Vestibular com ela, só para testar.
Lembro me apenas de uma questão daquele Vestibular no qual fui a primeira colocada para o segundo semestre de Administração de Empresas na UFRGS, na prova de história, 2° guerra Mundial, pedia-se uma interpretação para a reprodução de uma obra de arte: “Guernica de Pablo Picasso”.

O Sorriso amarelo do gato de Alice

Logo ao chegar, andando apressada pela calçada da Osvaldo Aranha, detalhei a paisagem daquele local que me acompanharia por muito tempo.
Observando as diversas árvores, lembrei de uma imagem:
Um gigantesco sorriso amarelo.
O sorriso malicioso e enigmático, era parte de um não menos misterioso gato, que esperava em cima de uma árvore para guiar Alice ao País das Maravilhas...
Tanto eu, quanto Alice chegamos quase sem querer, ela ao “País das Maravilhas” e eu aos portões daquela Universidade.
Também como Alice, eu pensava estar entrando em um local maravilhoso, achava estar abrindo as portas do paraíso.
O gato de sorriso amarelo guiou Letícia, desculpem, Alice por um lugar muito diferente de tudo que ela conhecia.
Naquele lugar, todos corriam de um lado para o outro o tempo todo, na verdade o tempo era pensado de maneira diferente, era dividido como uma corrida de obstáculos. Para controlar a corrida havia uma planilha da qual todos eram escravos, era ela que dizia onde cada um deveria estar a cada hora.
A planilha se chamava “Horário”, não sei se este era seu nome verdadeiro, apelido ou pseudônimo, porém era isto que estava escrito em letras grandes no cabeçalho.
Todos sabiam se comunicar com o Horário, apesar das letras miúdas e dos códigos que só mais tarde o gato traduziu como abreviaturas de determinadas palavras.
Palavras diferentes, naquele lugar se falava uma língua estranha: “entregue a documentação no SAE, faça o requerimento no DECORD, entre com o processo na CONGRAD!
Por trás daquelas palavras escondia-se um monstro malvado que dominava tudo por aquelas bandas. Nada se fazia sem passar pelo monstro.
Teve uma vez que Letícia, desculpem, Alice encolheu e quase foi devorada por esse monstro chamado Burocracia.
O gato era por demais esperto e contava com algumas proteções, por vezes apareciam em seu pescoço peludo guias de Ogum e Iemanjá. Ainda bem, pois assim ele pode conduzi-la por caminhos estreitos e atalhos até que ela começasse a compreender como as coisas funcionavam por ali.
Aquele local era tão diferente de tudo que ela conhecia que ali quem era considerada estranha era ela. Achavam estranhas suas roupas, seu jeito de falar, as coisas que ela não tinha, os lugares que não conhecia e até seu deslumbramento com tudo que estava vivendo era motivo de estranheza para os outros.
Logo ela passou a se sentir sozinha.
Uma solidão nunca dantes experimentada, a solidão de olhar em volta e não ver pessoas como ela. A solidão de caminhar sozinha, lanchar sozinha, estar rodeada de outros e ainda assim estar sozinha.
Um dia o gato que sempre aparecia para tirá-la de alguma encrenca trouxe a novidade:
A rainha de copas que mandava até mesmo no monstro Burocracia, uma tal de Wrana, descobriu que havia intrusos naquele local de excelência e decretou: “Cortem a cabeça!”
Os instrumentos usados foram chamados “Jubilamento e Recusa de Matrícula”.
Letícia (puxa vida, como eu confundo), Alice passou a correr muito perigo.
Não era bem-vinda.
Aquele lugar não era para ela e sim para os que a rainha considerava “escolhidos”, os melhores, os que podiam pagar um tributo chamado “dedicação exclusiva”.
Letícia, ou melhor, Alice não podia pagar o tal tributo.
Exausta, mal agüentava-se sobre as pernas. A viagem aquele lugar estava lhe custando bem mais do que ela esperava.
Não descansava direito, corria de um lugar para o outro o dia todo para satisfazer o tal Horário que se esparramava da manhã até a noite. Comia mal e ainda tinha de viver se escondendo.
“Cortem a cabeça!”
E o gato malandro que tinha a ginga de sambista, rebolava para tirá-la de uma encrenca e de outra...
Até que um dia Alice, digo Letícia, (sei lá tanto faz), começou a crescer.
Quanto mais crescia mais difícil ficava se esconder.
Esconder sua história, suas raízes, sua cultura.
Não, ela não comeu nenhuma frutinha misteriosa, ela apenas começou a se perguntar por que tinha de ser igual.
Com o tempo, começou a descobrir o quanto era importante ser diferente, o quanto tinha a acrescentar com seu gê nê se quá do Morro Santana.
Se descobriu humana, única, singular e genuína.
E principalmente descobriu que aquele gato sambista, malandro, esperto, malicioso, filho de Ogum com Iemanjá, era um reflexo de uma parte de si, que mesmo escondida relegada, continuava de forma viva e vibrante a ajudando a sobreviver naquele local.
Que importa se lhe cortassem a cabeça, ela já sabia quem era e aquele sorriso amarelo agora estava estampado em seu rosto.

O fantasma de Gabriela

Nunca entendi porque ela subiu no telhado, mas a cena me é presente como se acontecesse agora e como se eu fosse um dos transeuntes a observá-la.
Também não podia entender porque uma mulher adulta agia como criança e porque diabos seu vocabulário se resumia ao sofrível: “Seu Nacibe é moço bonito.”
Coitada, pensava eu do auge de minha sabedoria de 9 anos, tem problemas mentais.
Claro, a música já explicava: “Ela nasceu assim, cresceu assim, é mesmo assim, seria sempre assim”...pobre Gabriela!
Mal sabia eu por quantas e quantas vezes o fantasma de Gabriela cruzaria o meu caminho.
Óbvio, a pele parda, os cabelos longos, ondulados e rebeldes, as formas arredondadas que passaram a me acompanhar desde os doze anos....
Muito tive de falar para demonstrar que meu vocabulário ia muito além do “Seu Nacibe é moço bonito”. Via com estranheza a decepção que isso causava em muitos.
Difícil de entender, Gabriela era popular mesmo tendo apenas com cinco palavras na boca, eu que já lia livros de arte e falava sobre a situação política e econômica do país era quase sempre ignorada.
Ou era a exibidinha que entrou na faculdade, ou era a pobretona do morro tentando impressionar, enfim era sempre invisível.
Nisso me assemelhava a Gabriela, era e sempre fui uma retirante.
Alguém de fora, uma intrusa, tanto nas escolas, públicas é bem verdade, porém burguesas que minha mãe conseguia me matricular, quanto na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
A faculdade de Administração de Empresas pesava sobre os meus ombros juntamente com o orgulho de toda a família Farias por ter sua primeira representante em um curso superior.
Já ingressara no mundo adulto e os dramas da casa e da família já não me eram mais poupados.
Um tio ficava desempregado?
Mais um morador para nossa casa, camas apertadas, banheiro ocupado, bife dividido.
Uma tia que ganha nenê?
Fraldas pela casa, choro de madrugada e revezamento para cuidar do pequeno enquanto a mãe trabalhava.
Nada de mais para uma família que começou em Bagé, uma lavadeira, um encanador, sete crianças em um casebre sem banheiro.
Cheguei a conhecer o casebre sem banheiro, portanto, nada de mais para mim.
Nada de roupas, nada do tênis da moda, nada dos materiais escolares caros e enfeitados que eu tanto gostava.
Mas de uma coisa minha mãe, chefe da casa e herdeira natural de todos os problemas da família não abria mão:
Enquanto estudássemos, não trabalharíamos.
Essa era a regra de ouro, indiscutível, custasse o sacrifício que fosse.
Já tinha vinte anos quando pensei em desobedecer a regra.
Sabia que as coisas estavam apertadas demais.
A Universidade estava custando muito para minha mãe, eram muitas passagens, fotocópias, livros, alimentação.
Foi quando o fantasma da Gabriela se apresentou a mim, desta vez, cara a cara.
Nunca havia trabalhado, nada a não ser o serviço doméstico, para o qual minha vó me treinara com dedicação desde a mais tenra idade na esperança de que eu encontrasse um “homem bom” que cuidasse de mim.
Mesmo assim, comecei a sair de manhã bem cedo com meu currículo em baixo do braço. A esperança era que o fato de estar no quarto semestre do curso de Administração de Empresas na UFRGS me abrisse portas, me valesse uma oportunidade.
Após as caminhadas ia para a aula, com fome e bolhas nos pés. Queixava-me desiludida com a única amiga que tinha na Faculdade, foi uma surpresa para mim quando ela me fez uma proposta:
Disse, escolhendo as palavras cuidadosamente que com o meu biotipo, não havia como não ganhar dinheiro, quanto mais sendo Universitária da UFRGS...
Havia sim em mim um pouco de Gabriela, mas não estava no biotipo e sim na ingenuidade, pois demorei algum tempo para entender que estava sendo aliciada a prostituição.
Nunca havia notado como minha colega com uma história de vida tão parecida com a minha, tinha tantas coisas que eu não tinha: carro, roupas caras, viagens...
Sempre acreditei quando ela dizia que havia sido promovida na loja em que trabalhava. Nunca contestei o fato de ela ter tanto tempo livre.
Nunca havia pensado o quanto os estereótipos podem estar em toda parte, nas pessoas, que não são o que parecem ou que não parecem o que são, ou mesmo nos lugares...
Quem diria que eu sairia do morro, onde sempre fui tratada com profundo respeito como a princesa intocada que teria um futuro, para ser aliciada a prostituição dentro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, um centro de excelência na produção de conhecimento.
Naquele ano, continuei a dividir o melhor par de sapatos que tinha com minha irmã.
Acabei abandonando a Faculdade de Administração de Empresas no 7° semestre.
Não consegui encontrar um jeito de me manter, mas recusei o dela.
Me afastei de minha colega e única amiga.
Sei que ela não nasceu assim, não cresceu assim, não era mesmo assim e não precisava ser sempre assim, mas não soube lidar com o segredo que ela me confidenciou.
Gostaria muito de reencontrá-la.


O fantástico show da vida


Em dez segundos vi os flashes de toda minha vida.
Só imagens.
A banheira que eu tomava banho, meu ursinho de pelúcia, minha primeira bicicleta, o dia em que quase quebrei o dente dando o primeiro beijo, o cartaz que minha irmã fez para mim quando fui aprovada no vestibular...tudo em flashes que passavam em velocidade assustadora, vertiginosa.
Acordei. Abri os olhos e pensei “o que aconteceu?”
A pergunta era retórica, mas meu cérebro é exibido, gosta de mostrar que sabe, respondeu: “Eu cai.”
Caíra mesmo, do alto da escada de minha casa.
Era a primeira vez que eu morava sozinha, por isso eu limpava a casa exaustivamente, como criança que limpa o tênis novo a cada passo dado...limpei tanto que cai, às 2:00 da madrugada, no meio de uma faxina.
A escada era alta, um metro e meio no mínimo, mas tudo bem pois meu braço amorteceu a queda, quer dizer, para ele não ficou tudo bem.
Foi fratura exposta do rádio, com luxação grau três, em termos leigos, separei a mão esquerda do resto do corpo.
No outro dia no Hospital olho no espelho e dou de cara com a Tina Turner.
Os cabelos desgrenhados estavam volumosos como nunca e ainda contavam com ornamentos de grama e folhas ganhados no tempo que passei desmaiada até me socorrerem, os olhos vermelhos de tanto chorar pareciam querer saltar das órbitas, usava uma sainha minúscula (daquelas roupas que agente só usa para fazer faxina em casa), tinha marcas roxas espalhadas pelo corpo todo e claro um peso enorme em gesso cobrindo todo braço esquerdo.
A primeira lembrança do que ocorrera comigo, não foi a dor ou o trauma de ver minha mão pedindo o divorcio do meu corpo... foi aquele flash back de imagens.
E quer saber achei tudo muito chato...
Não teve abertura espetacular com mulheres geométricas se levantando da água, nem mesmo uma música de fundo que fosse condizente com cada fato.
Limpei as lágrimas e pensei realmente não era hora de morrer, tenho muito que colocar nessas imagens, muito que fazer para torná-las interessantes.
O médico me dissera que minha recuperação dependeria muito de mim, da reação do meu organismo, mas não garantia que eu recuperasse os movimentos da mão.
Disse a ele: “Se depende de mim então estou em boas mãos, eu vou sair daqui logo, logo! Tenho muito que fazer lá fora, tenho que fazer tudo que sempre quis e ainda não fiz.”
Dez dias depois eu e meu gesso estávamos fora do hospital.
Desenvolvi um amor por aquele gesso, ele estava ali para me lembrar de quanta vida eu ainda tinha pela frente.
Ele me acompanhou por seis meses.
Nesses seis meses tratei de botar em prática um plano que tinha : Fazer uma Faculdade, não mais por necessidade, pressão ou por querer um bom emprego, mas por satisfação pessoal, porque eu mereço.
O plano que antes não tinha data prevista para ser posto em prática se tornou minha grande meta e me motivou para recuperar aos poucos os movimentos da mão esquerda.
Estudava para o vestibular enquanto me exercitava com bolinhas de fisioterapia.
No ano de 2004 da graça de Nossa Senhora, exatamente dez meses após ter sofrido um grave acidente que quase me fez deficiente física, passei novamente no Vestibular da UFRGS agora para artes visuais minha grande paixão.



O universo cabia dentro de mim


Convivi com grávidas a minha vida inteira.
No morro, cachorro e criança parece que surge por geração espontânea, sempre tem algum recém chegado e estamos sempre a perguntar de onde virá o próximo.
Para mim, por muito tempo, era assim que eles surgiam: em um dia não estavam lá e no outro, pimba ! Apareciam no colo de suas mães.
A primeira vez que vi um parto, foi em um vídeo-clipe.
Eu já era grandinha, já sabia, é claro do alto de minha “capacidade intelectual avançada” de tudo sobre a vida, mas uma coisa é achar que sabe, outra, é ver.
Era aterrorizante ver o quanto a natureza pode deformar um corpo em busca de um milagre. As imagens foram tão fortes que a música esqueci, nem mesmo sei qual a banda, só lembro de pensar: Alguém que pode produzir a complexidade de um ser humano, abriga dentro de si um universo.
Eu, grávida pensava muito no parto e lembrava aterrorizada daquele vídeo.
Sempre disse : “O melhor lugar do mundo para se ter um bebê com certeza é o Projak[7] , todas as grávidas deviam ir ganhar lá.
Lá a bolsa d’água sempre rompe e claro alguém faz a piada clássica aproveitando o trocadilho entre bolsa d’água e bolsa de carregar a tira colo. (Será que ninguém vai avisar a eles que esse humor de trocadilhos é coisa de americano que não pegou por aqui?)
Lá é só sentir as primeiras dores e se tem de sair correndo pois o bebê já está quase nascendo. Não sei por que correm tanto, pois o parto acontece mesmo em qualquer lugar: no ônibus, no taxi, mata fechada, nave alienígena, beira de riachos... o local menos provável é o hospital.
Outra facilidade é que qualquer um que esteja por perto tem a perícia necessária para fazer o parto, basta dizer as palavras mágicas: “Aqueçam bastante água e fervam uma tesoura!” Pronto, alguns minutos (e algumas caretas) depois terás em seus braços uma linda, limpa e saudável criança aparentando seis meses de vida.
Claro que nem o vídeo-clipe, muito menos as cenas da Globo, te fazem entender o quanto dói.
Ninguém fala sobre ficar dez, doze, quatorze horas sofrendo e gritando.
Ninguém explica, ou pode explicar, a sensação de que seu corpo está espontaneamente se partindo em dois.
Ninguém fala o quanto o universo é pesado, pois só se pode descobrir isso quando ele força os ossos da sua pelves.
Não tem como se ter noção do que é estar prestes a explodir, devido à enorme pressão interna.
Ninguém fala o quanto isso é assustador.
Quem não cresce nessa hora, talvez nunca mais cresça.
A dor física é tão intensa, que só pode ser o prenúncio de uma mudança, uma transformação. As larvas devem experimentar algo assim ao virarem borboletas.
O ponto limítrofe dessa passagem ocorre, sem dúvida, quando seu corpo se rompe.
O universo sai.
Assim, simplesmente sai. Após tanta intensidade, ele simplesmente escorrega para fora de você, te abandona.
Corta-se o elo que unia você àquela coisinha cinzenta, melequenta e enrugada e é como se alguém simplesmente puxasse o fio da tomada.
A música intensa e desesperadora que tocava dentro de sua cabeça em um volume ensurdecedor, cessa.
Faz se o silencio.
Tudo passa.
A transformação já ocorreu.
Ainda é visível o espaço aberto, seqüela da passagem do universo, porém ali, meio sentada, meio deitada, exausta, frágil a sangrar e chorar o corpo fica, mas já não é o mesmo.
Seu coração, sua alma já não estão mais com ele, seus olhos já estão presos na sala para onde a coisinha cinza foi levada.
Minhas primeiras palavras não foram de alívio, queixa ou mesmo de agradecimento, foram um resumo do que seria minha vida dali em diante: “Porque ela não está chorando?”
Porque ele não está chorando, perguntava eu enquanto o médico me mandava fazer mais uma forcinha para expulsar a placenta.
Vocês conhecem? Essa tal placenta? Eu não, pois não vi nada.
Já que não permitiram levantar para ver o que ocorria na tal salinha, fiquei ali agarrada à cama olhando e repetindo: “Porque ela não está chorando?” Assim se passaram os mais angustiantes minutos de minha vida, não sosseguei até ver a coisinha cinza chegando aos berros no colo de uma enfermeira.
Só então após a apresentação oficial, com direito a beijos e abraços deitei, pensando que iria apreciar uma sensação que a muito eu havia esquecido: sentir-me sozinha em meu corpo...
Ledo engano, a presença do universo havia deixado marcas em mim.
A mudança era permanente.
Era impossível parar de pensar na coisinha cinza.
Porque será que ela era cinza? Não tive tempo de contar os dedos, vou chamar a enfermeira e pedir para alguém contar... Será que eu posso ir até lá lembrar que tem de fazer o teste da orelhinha, vi na TV que agora é obrigatório em hospitais públicos, mas sabe-se lá se agente não cobra...
Esquecido, relegado a um segundo plano, depois das fraldas, das meias que não secaram pois choveu, depois das cólicas e depois, muito depois do primeiro sorriso, lá esta o eu quase inexistente.
Calma, o eu voltará a existir, mas jamais será o mesmo.
Abnegado, subserviente, dócil e quem diria disciplinado, ao olhar para si, enxergará ela, o centro do universo e acreditem, irá sorrir, feliz como jamais foi.

Um e-mail para B.O.


Sinto me compelida a escrever-te B.O., pois parece que já nos conhecemos!
Há todos esses meses acompanho-te e torço tanto, vibro tanto ! É tão grande em mim a alegria de ver te ai, tão no alto...
Sou uma universitária do sul do Brasil... Sim, temos essas coisas por aqui... Sim, também tem carnaval e selva...
E B.O., deixa eu te contar, sou negra como tu!
Sou tataraneta de escravos e tive a sorte de poder ouvir minha bisavó contar histórias do mesmo jeito que a mãe dela contava para ela quando ambas ainda eram cativas.
Eram histórias sobre ervas que curam, mistérios do além e algumas coisas sobre uma terra distante.
A minha favorita, B.O., era quando ela contava como conheceu seu pai.
Era uma história sobre meu tataravô, Libânio um mestiço de negro e índio que era o capataz da fazenda onde minha bisavó nascera.
Naquele momento uma guerra cobria nosso Estado de sangue, porém grande era a recompensa oficialmente oferecida para os escravos que fossem defender a pátria: seriam livres.
Libânio foi lutar na guerra do Paraguai, deixando as porteiras da fazenda uma negra e uma promessa: voltaria e se a criança que ela trazia no ventre fosse uma menina, a levaria consigo.
Eu sempre chorava ao ver minha bisavó contar como, dez anos depois, a mãe lhe apresentou o pai e despediu-se. A liberdade da filha fora conquistada por nascer em “ventre livre”, a matriarca ainda cativa não ia a lugar nenhum.
Aos portões da fazenda, a negra valente disse apontando o homem que nem desapeou do cavalo branco: “Esse é teu pai e de agora em diante tu vai morar com ele!”
Queria ter podido conhecer à negra que entregou o que tinha de mais precioso para que a filha pudesse ser livre e também o pai Libânio um homem que honrava promessas.
Como minha bisavó Euclides, e com tu, B.O., eu também nasci de uma mistura racial, no meu caso, um pai branco que me abandonou sem sequer conhecer-me e uma mãe negra, guerreira, batalhadora que me criou sozinha com a força de seu trabalho, na melhor tradição do orgulho negro: sem nunca ter de pedir nada a ninguém.
Não é mesmo uma grande ironia, B.O., que às vezes esse orgulho, que fez nossa gente sobreviver ao seqüestro, que os manteve vivos por meses nos porões daqueles navios fétidos e insalubres, que os fez suportar a chibata, os trabalhos forçados, os estupros e mutilações, esse orgulho que os fez prosseguir e assentar aqui nesse país as raízes de nossa cultura, nos atrapalhe?
É incrível mas muitos de nós ainda renegam o direito que temos a reparação por todas as faltas de oportunidades que nos oprimiram, rechaçaram, segregaram, marginalizaram, sutil e silenciosamente mesmo após a tal “Lei Áurea”.
Há um ano BO., aqui em minha Universidade deixei de apenas falar sobre questões raciais e abracei a causa das ações afirmativas.
É um projeto lindo chamado Conexões de Saberes, onde participo do território Conexões Afirmativas.
Nessa luta, que dividimos com muitos outros, grandes vitórias já foram alcançadas como por exemplo a implantação do Programa de Reserva de Vagas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Conquistamos cotas sociais e raciais, mas sinto que ainda estamos apenas no começo.
O trabalho de meu grupo, consiste em transmitir informações sobre ações afirmativas e sobre o funcionamento do Programa de Reserva de Vagas da UFRGS, demonstrando a importância de desmitificar a meritocracia como única forma de acesso ao ensino superior e desvelando o mito da democracia racial brasileira.
Esbarramos em muitas barreiras invisíveis de nossa sociedade , mas B.O, o que mais dói em mim, é quando um negro diz : “Não precisamos disso!”
É duro ver o quanto as pessoas desconhecem os entraves que a sociedade impõe ao seu progresso.
É duro saber que sem tomar conhecimento disso, talvez jamais consigam ultrapassá-los.
Por isso B.O., foi tão importante para mim te ver, aquele dia sentado “naquela cadeira”, com direito as bandeiras ao lado, a mesa imponente com livros ao fundo e todo aquele requinte austero do “topo do mundo”.
Essa é a imagem que pretendo guardar em minha mente para descrever aos meus filhos: um homem negro, lindamente sentado no topo do mundo.
Escrevo-te agora B.O., enquanto és em minha mente tão imaculado quanto a tua imagem no “topo do mundo”, nada do que fizeres daqui para frente poderá me fazer esquecer isso, porém já perdi muitos heróis e após o último, que perdi para os escândalos de corrupção e para uma insuportável tendência a “nunca saber de nada” sinceramente não achei que fosse ter mais um.
Por isso B.O. enquanto é tempo, te faço um pedido:
Só não me aperte nenhum botão vermelho, de resto tudo se resolve mas...
Por Favor Obama: “Mantenha-se longe dos botões vermelhos!”


Marronzinho : Ele vai falar!


Marronzinho, o mais marcante candidato a Presidência do Brasil que já conheci era negro.
Sim, com certeza esse fato foi importante para que eu o destacasse entre tantos outros candidatos exóticos que desfilavam no horário eleitoral do ano de 1994.
Mais o importante é que ele ia falar.
Nunca vi campanha de marketing eleitoral tão corajosa e provocativa: um homem negro, com a maior cara de povo, ocupando aquele espaço, almejando aquele cargo já era por demais inovador...
Acrescia-se o fato de que ele ia falar.
Nos segundos destinados a ele na propaganda eleitoral, apenas essas informações eram passadas, seu nome, seu partido (que não foi tão marcante assim) e uma promessa feita como o dedo em riste, ele iria falar.
Os dias se passavam e não se ouvia o som de sua voz, apenas o locutor a garantir com veemência: “Ele vai falar!”
Apesar da marca indelével em minha memória somente agora, vinte anos depois me dou conta do peso das palavras.
De quanta coragem é preciso para simplesmente se levantar e falar e de quanta responsabilidade isso implica.
É isso que tenho feito desde o ano passado, falado.
Falado diante de muitas pessoas, diante de grupos pequenos, grandes, diante de turmas de alunos, grupos de professores, colegas.
Já é quase automático, levantar e falar. Expor, argumentar.
No inicio gostei, da atenção dos olhares da admiração que provocava. Gostei do desafio, do jogo. Não basta coragem é preciso conhecer o tema, dominar, saber o que dizer e quando se é uma negra falando de ações afirmativas, é preciso saber mais.
Seus argumentos tem de ser mais consistentes, sua postura mais firme, seu raciocínio mais rápido, sua oratória fluente.
Afinal, sempre estarás legislando em causa própria.
Um branco que fala em reparação a populações que passaram por processos históricos de privações de oportunidades é sempre uma pessoa bondosa. Mesmo aqueles que acham que ele está falando bobagens reconhecem nele um altruísmo louvável, um amor ao próximo admirável.
Um negro que encara a mesma temática deverá estar preparado para enxergar no rosto das pessoas aquele sorriso que insinua que ele esta tentando levar vantagem.
O estereótipo de negro inclui o “se dar bem”, a desonestidade, a trapaça, é preciso estar pronto para isso quando se levantar e falar.
Deve-se também estar pronto para carregar o peso de uma parcela da população sobre suas costas e para ser cobrado por tudo o que for feito em seu nome.
Estar pronto para ver seu trabalho esquecido, desconsiderado, desmerecido ou simplesmente citado sem nenhuma referência ao seu nome.
Tem de estar preparado para assumir lideranças inesperadas que caem em seu colo como um presente de grego e saber que por mais que tu faça o melhor de ti, sempre aparecerá alguém para dizer que tu devia ter feito diferente.
Hoje sinto um pouco de medo. Sim sinto medo, sou humana.
Hoje recebi uma crítica que me abalou bastante, me fez pensar no quanto é grande esse caminho e no quanto eu sou pequena . Me senti solitária.
Como disse certa feita Sandra Corazza “A colheita é pública a capina é solitária.”[8]
Vai ver que foi por isso, que Marronzinho nunca falou.

Notas:
[1] Graduada em Artes Visuais pela UFRGS, Pesquisadora Iniciante do Projeto “Movimentos Pedagógicos da Gestão do Cuidado: Acompanhando Estudantes Negros e Indígenas na UFRGS”, Arte-educadora da Rede Estadual de ensino do Rio Grande do Sul.
[2] Expressão popular que denomina famílias onde se percebe uma alta mortalidade.
[3] Série de desenho animado produzida para a TV por william Hanna e Joseph Barbera desde 1953.
[4] Pintores Europeus adeptos as Vanguardas Modernistas, o cubismo e o Fauvismo.
[5] Painel pintado por Pablo Picasso em 1937, na ocasião da Exposição Internacional de Paris.
[6] Expressão pejorativa americanizada que denomina os alunos extremamente estudiosos e impopulares entre os colegas.
[7] Central de Produções de novelas da Rede Globo de Televisão.
[8] CORAZZA, Sandra. Pequeno manual infame para escrever uma Proposta de Dissertação de mestrado.

Memorial de Tatiane Garrido

Apesar de tudo ela tem sonhos...

“Sempre precisei de um pouco de atenção,
acho que não sei quem sou
só sei do que não gosto” [1]
Os primeiros meses

Me chamo Tatiane, e esse nome foi selecionado de uma enorme lista feita pelos meus pais, onde eles anotavam todos os nomes que gostavam. Minha mãe Noeli e meu pai Raul tiveram três filhos: o primeiro foi o Luciano, que faleceu pouco antes de completar dois anos, ele tinha problemas cardíacos, era uma criança frágil e chorava muito. Onze meses depois da morte do meu irmão nasceu a Luciana. O período da gravidez foi difícil, minha mãe enjoava demais, e se envolvia com muitos problemas familiares.
A Luciana tinha seis anos quando a minha mãe a chamou para avisá - la que ela teria uma irmãzinho (a), e ela desde o início adorou a idéia.
Dessa vez a gravidez foi muito tranquila, sem enjoos e problemas. A família torcia para que nascesse um menino, achando que ele substituiria o Luciano, minha mãe queria uma menina, pois além de saber que o filho nunca seria substituído, tinha a impressão de que se carregasse no ventre uma menina, de alguma forma a mesma já estaria sendo rejeitada pela família.
No dia 12 de outubro de 1987, aos nove meses de gestação, a Luciana foi acordada no meio da madrugada, recebeu o seu presente de dia das crianças e foi levada para a casa da minha avó, onde passaria o próximo dia. Minha mãe foi levada ao hospital Divina Providência, por ser o mais perto de casa, mas lá a médica disse que o bebê era prematuro, e que minha mãe tinha que “deitar o cabelo dali” (foi essa a expressão utilizada pela médica). O próximo hospital a ser procurado foi a Santa Casa de Porto Alegre, que na época era considerado um hospital muito ruim, mas foi lá que acreditaram nas evidências e nos meus pais, e foi lá que no dia 12 de outubro eu nasci. O meu parto foi difícil e demorado, minha mãe conta que preocupou-se pois eu não chorava, foi quando me mostraram para ela, chupando o dedo, então ela tranquilizou-se.

Uma infância feliz e cheia de sonhos...

Tive uma infância muito feliz e não tenho dúvida que fui muito amada pelos meus pais. Cresci no bairro Vila Nova, um lugar relativamente seguro e confortável, por estar longe do centro de Porto Alegre, eu podia brincar na rua com os amigos até tarde sem preocupar os meus pais. Tive diversos bichos de estimação, o que me transformou em alguém que ama muito todos animais. Fui integrante de um Diretório de tradições Gaúchas (DTG), coral e grupo de dança, além de participar de desfiles sempre que podia.

“Voa, voa que a vida é tão boa.
Passa um tempinho à toa
Que eu chego em qualquer
Voa no carrossel da
Pra terra da
Venha comigo voar” [2]
Estudei da primeira à oitava série na escola Pedro Sirângelo, considerada por muitos uma escola ruim, e mesmo assim era comum eu ficar em recuperação.
Quando tive que escolher uma escola para estudar no ensino médio decidi que iria ser professora. Só havia três escolas, que possuíam o curso de magistério, uma delas era noturna, ficava longe da minha casa e em um bairro considerado violento, e como eu tinha quatorze anos, minha mãe não permitiu que eu estudasse lá. A outra escola era localizada no bairro em que eu morava, mas era particular, e meus pais não tinham condições de pagar. A última opção de escola era o Instituto de educação, escola de nome, onde havia uma prova seletiva para os alunos de magistério. Fui conhecer a escola com a minha mãe e odiei o lugar, era horário de recreio, havia uma bagunça e diversos outros detalhes que me fizeram detestar o lugar. Decidi que não queria estudar ali, mas mesmo assim me inscrevi para a prova.
Era dezembro de 2001, eu estava lutando contra a matemática para concluir o ensino fundamental, acabei não estudando nada para a prova do Instituto de Educação. Quando chegou o dia eu estava muito calma, afinal, não queria estudar naquela escola mesmo. Fiz a prova da mesma maneira que respondia a questionários escolares, ao invés de pensar, eu chutava as questões que tinha dúvida ou não sabia. Tive um grande cuidado com a redação, pois gostava muito de escrever, e sabia o valor de um texto bem feito. Após entregar a prova, fui dar uma volta pelo local, havia muitos candidatos e todas as salas estavam cheias.
Depois desse dia passei a ver a escola de uma forma diferente, percebi que queria sim estudar ali, e fiquei arrasada por ter feito a prova com tanto descaso. Senti-me pior ainda quando descobri que a desclassificação me levaria a ser matriculada em algum colégio que houvesse sobra de vagas.
Era janeiro do ano de 2002 e eu estava confiante, acreditando que seria aprovada, mesmo sem ter motivos para isso, algo dentro de mim dizia que eu tinha uma vocação, e que eu deveria acreditar nela, foi quando uma amiga me disse que eu jamais passaria, pois além de não ser inteligente, eu não havia estudado. Isso me desmotivou, pois eu achava que ela tinha razão. Mas achava que se eu tinha mesmo que ser professora, então eu iria passar, não importa como fosse, mas iria ser aprovada.
Em fevereiro recebi uma carta da SEC me parabenizando pela minha aprovação no processo seletivo do curso normal. Fiquei feliz pela conquista e mais ainda por saber que sairia de lá com uma formação.
Foi no primeiro ano do magistério, que talvez por vir de uma escola não muito boa, ou por contestar a forma de ensino de uma determinada professora, eu obtive 5,7 na disciplina da mesma, e acabei repetindo o ano, pois a média era 6,0.

O início das responsabilidades e a fusão entre adolescência e vida adulta...

No ano de 2003 eu passei a estudar mais e consegui tirar boas notas na disciplina em que havia sido reprovada, a maior motivação para o estudo, foi pensar que por não ter passado de ano, eu era muito burra. Nesse mesmo ano consegui o meu primeiro estágio, tinha então 15 anos e muita responsabilidade. Era eu professora de 25 crianças de uma turma de jardim em uma escola do bairro onde morava. As manhãs eram difíceis, e eu não tinha um bom domínio de turma, fato que fazia eu me sentir incompetente demais, talvez por isso eu chorava muito quando estava longe do serviço. Quando o relógio marcava 13:00 eu saía correndo, pois tinha que ir para o colégio, onde estudava muito para não repetir o ano novamente. Tudo o que sabia era que não queria ser professora, mas não achava certo desistir. Uma experiência fracassada não era o suficiente para me fazer abandonar o curso.
Frequentemente o assunto “faculdade” surgia na sala de aula, e eu era a única que não sabia o que queria cursar, eu só sabia o que não queria. Foi nesse mesmo ano que as aulas de teatro se destacaram entre as outras, e eu senti que deveria, e queria cursar Artes cênicas (na época esse era o nome do curso), logo soube que esse curso só havia no “monstro chamado UFRGS”.
No ano de 2005 eu passei a me dedicar mais ao serviço e ao teatro. Foi nesse mesmo ano que comecei a namorar pela primeira vez, e para mim, isso aliviava qualquer problema que eu pudesse ter, talvez por isso eu passei a compreender o mundo das crianças e amar a profissão que exercia, pois aprendi a encarar os problemas e dar a eles o valor que realmente tinham. O André era um cara legal, que apesar de tudo conseguia me entender e aceitava todos os problemas para não entrar em conflito comigo. Hoje vejo que eu amava de uma forma errada, obsessiva demais.
“Se um dia eu pudesse ver meu passado inteiro
e fizesse parar de chover nos primeiros erros“ [3]
Em 2007 eu iniciei o meu estágio obrigatório. Era professora de uma turma complicada, com alunos de oito à quatorze anos, que tinham muitas carências e dificuldades, mas o progresso observado diariamente era muito gratificante. A minha supervisora exigia muito de mim e eu passava todas as tardes e finais de semana ocupada com os planejamentos. As minhas noites estavam livres, e foi então que um grande amigo me falou de um cursinho popular marista que acontecia no colégio Rosário. Achei uma ótima oportunidade, André e eu nos inscrevemos, fomos selecionados e logo começamos a frequentar as aulas. Além de namorados éramos colegas de sala de aula, algo que pra mim era muito bom, pois ele me ajudava nos exercícios de física, matemática e inglês, onde eu apresentava grande dificuldade. Devido ao estágio eu só tinha tempo para estudar nos finais de semana, e isso começava a me preocupar.

Ah...vida real!

No segundo semestre do ano de 2007 pude me dedicar mais ao vestibular. Já estava formada no magistério e então tinha todo o meu tempo dedicado aos estudos, quanto mais eu estudava, mais achava que tinha que estudar. Eu ia a palestras, lia materiais da internet, escutava CD’s de literatura, lia vários jornais, e tudo que fosse fonte de informação eu queria acessar. Muitas vezes achava que não estava preparada, tinha muito medo, mas meus pais e amigos me ajudavam muito.
Em novembro de 2007 descobri que meu namoro de quase três anos estava prestes a acabar, e essa situação me machucou e preocupou muito. Eu colocava o André em um pedestal, e tinha um sentimento que ultrapassava o amor. O fato de saber que iria perdê-lo e justamente naquele momento em que eu tanto precisava dele, quase me enlouqueceu. Faltava um mês para o vestibular e eu não conseguia estudar, estava cansada de ter aulas, de correr atrás dos conteúdos e para completar estava sofrendo demais com essa situação. Apesar de tudo, achamos melhor decidir isso depois do vestibular, mas mesmo assim eu sabia que estava chegando ao fim. Não conversava com ninguém sobre o que estava acontecendo, e sabia que isso me deixava pior ainda.
"Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez eu sei
Escuridão já vi pior de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem“[4]
Passada uma semana dessa notícia que tanto me machucava, eu resolvi ocupar o meu tempo ao máximo, e fazia isso estudando. Eu ficava cerca de dez horas por dia em meio aos livros e cadernos, e aos finais de semana, para relaxar ficava com os amigos, que durante os três anos de namoro eu quase nem procurei. Nessa fase passavam muitas coisas pela minha cabeça, eu pensava em tudo e nada ao mesmo tempo. Eu estava pesando 40 Kg, e só chorava, estudava e sentia medo, e isso começou a preocupar a minha família.
Chegou o dia do vestibular, muito antes do horário da abertura das portas eu já estava na Reitoria. Eu tentava analisar os candidatos, e cada camiseta de cursinhos influentes me apavorava, e deixava mais nervosa ainda.
Eu achava que não estava preparada, mas achava que merecia passar, e pedia isso a Deus todas as noites. A primeira correção foi decepcionante para mim, meu rendimento na prova de português não havia sido muito bom. Decidi que não corrigiria mais nenhuma prova, iria esperar o resultado.
“ Mas ela diz
Que apesar de tudo ela tem sonhos
Ela diz
Que um dia a gente há de ser feliz
Ela diz
Que apesar de tudo ela tem sonhos
Ela diz
Que um dia a gente há de ser feliz
Se Deus quiser.....” [5]
Eu estava na praia, ainda com o meu namorado, aliás, foi nessa viagem que realmente tudo acabou, lembro que era noite e vi em uma propaganda que o listão da UFRGS sairia no próximo dia. No dia seguinte acordei às dez horas e não vi nenhuma chamada no meu celular, fiquei desmotivada, peguei o jornal e me deparei com uma nota que dizia: “UFRGS divulgará o listão dos aprovados ainda hoje.” Ainda me restava uma esperança.
Nesse mesmo dia fomos para Palmares, e eu nem pensava mais no resultado, fiquei longe do celular por muito tempo, e quando lembrei dele, vi que alguns dos meus melhores amigos tinham ligado. Fiquei nervosa e liguei para um deles, e foi ele quem me deu a notícia de que eu havia sido aprovada. No início eu não acreditei, mas devido às outras ligações e mensagens, passei a acreditar no que estava acontecendo.

“O que eu penso à respeito da vida
È que um dia ela vai perguntar,
O que é que eu fiz com meus sonhos
E qual foi o meu jeito de amar
O que é que eu deixei pras pessoas
Que no mundo vão continuar,
Pra que eu não tenha vivido à toa
E que não seja tarde demais.” [6]

Era emoção, felicidade e satisfação. Eu estava pronta, pronta pra fazer o que queria, e pronta pra fazer uma das coisas que pode mudar o mundo. A educação e a arte. Eu era Bixo em Teatro Licenciatura. De toda a minha família, eu fui a primeira oriunda de escola pública a entrar na UFRGS, e isso serviu de exemplo, eu fui a primeira a mostrar que é possível, que a universidade é um direito de todos, e agora, vejo duas primas, também vindas de escola pública que batalham por essa universidade que é pública, mas infelizmente ainda não é popular.
Do fundo do meu coração agradeço a meus amigos e minha família, pois sei que não conseguiria sem eles.
“Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança” [7]
______________________
[1] Teatro dos vampiros, composição Renato Russo, álbum “como é que se diz eu te amo”.
² Nave verde e amarela, composição Eliana, álbum “Eliana” 1994.
[3] Primeiros erros, composição Kiko Zambianchi, álbum “acústico MTV Capital Inicial”.
[4] Mais uma vez, composição Renato Russo, álbum “Presente”
[5] Janaína, composição Álvaro, Bruno, Coelho, Miguel e Sheik, álbum “biquíni.com.br”
[6] Certas coisas para dizer, composição Jorge Trevisol.
[7] Mais uma vez, composição Renato Russo, álbum “Presente”

Memorial de Zaqueu Key Claudino

MEMORIAL FORMATIVO
Zaqueu Key Claudino

No ano de 2008, quando concorri pela primeira vez a uma vaga para estudar em um curso de pós-graduação direcionado para jovens e adultos percebi que esta era a chance de colocar a ideologia dos povos indigenas e como estes se relacionam com a educação escolarizada e como realizam a educação cultural bilíngüe nos seus sistemas tradicionais.
Todavia, a partir do ingresso ao curso de graduação em Pedagogia escrevo e reescrevo o modo como este povo se relaciona com o mundo da educação escolarizada. Este memorial descritivo, é o primeiro que elaboro. Procurei seguir as orientações do professor Rafael Arenhaldt. Para a elaboração do memorial, o qual será apresentado à coordenação do Programa de Pós-Graduação do PROEJA PPGEDU, e é para a aquisição do título em especialista em educação profissional direcionada a (EJA) Educação de Jovens e Adultos e ao ensino médio, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

O INÍCIO
Sou indígena e o segundo filho de uma família de três irmãos e uma irmã – mesmo que sempre tenhamos nos relacionado muito bem, e meus pais tenham nos dado muita forca e incentivo aos estudos da educação escolarizada tive muitas frustrações relacionadas ao fato de eu não ter tido irmãos e irmãs que cursaram uma graduação. Meu pai, hoje aposentado, era funcionário da Fundação Nacional do Indio (FUNAI) e a minha mãe, uma senhora digna de ser chamada KUJÁ, pois conhecia muitas ervas medicinais. Nasci no ano de 1970 na reserva indigena da Guarita, que na época era chamada de terra indigena SAKROG no município de Redentora RS.
Quando eu tinha doze anos de idade fui alfabetizado na escola Indigena Sepé Tiaraju da aldeia do irapuá no ano de 1982, na Terra Indigena da Guarita, onde as aulas eram sempre presididas por professoras brancas – não sei quem eram, mas sabia que eram ( FÓG). Estas professoras eram mulheres de chefes do posto e de funcionários da FUNAI, nesta época já existia o ensino bilíngüe, porém com pouca intensidade, pois a grande meta era fazer com que os alunos indigenas aprendessem primeiro a língua portuguesa, então o idioma kaingang sempre ficava em segundo plano. Somente se ensinava nas aulas de bilíngües a cultura, quem presidiam estas aulas eram os monitores bilíngües. Permaneci nesta escola até meus dezeseis anos de idade, desestindo logo depois, motivo pelo qual eu casei tive dois filhos e uma filha com a primeira esposa com quem vivi por nove anos. Quando nasceu meu primeiro filho o Gilmar Fagvëjá, tive uma nova oportunidade de voltar à estudar denovo, após ter abandonado as aulas. Houve uma inscrição para monitores bilíngües no ano de 1987, para indígenas que teriam terminado a 4° série do primeiro grau, então me escrevi e, como teria sido aprovado para o ano seguinte a 5° série, fui selecionado para cursar o curso de monitor bilíngüe no Estado do Parana município de Laranjeiras do Sul (na missão da ISLB). Tive uma experiencia fantastica, realizei os meus estudos tudo voltado para a cultura kaingang, realizei este curso por um periodo de três anos, terminado o curso no final do ano de 1989 voltando com a minha familia, digo família por que durante estes três anos fora da Guarita, residindo na missão, colégio dos pastores, tive mais um filho o Cleverson Nïvénhmág.
No ano de 1990 foi a minha primeira experiencia como professor bilíngüe, foi justo na Escola Indígena Sepé Tiaraju, onde anos atraz teria sido alfabetizado, hoje Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Completo Antonio Kasïn Mïg. Ali, gostaria ter encontrado aquelas professoras brancas que foram minhas professoras e também gostaria de ter encontrado o meu professor bilíngüe, o Neri Käme sï Ribeiro, mas não tive esse previlegio. Somente uma professora que atualmente é chefe do posto da Guarita a professora Janir Hermann, tive o prrvilegio de ser colega dela. O meu tio que era o cacique na Guarita o Samuel Claudino, conseguiu através da prefeitura do município de Miraguaí e Redentora contratatos de vinte horas cada um, ambos que até hoje fazem limites com a terra indígena Guarita e com esta conquista fui alfabetizar os meus parentes na Língua Kaingang, mas percebi que ainda faltava algo para mim, e era sempre criticado por esta colega branca, pois eu não tinha o ensino funadamental e nem o médio. Como a prefeitura tivera me contratado sem uma base legal me impuseram uma condição para manter o meu contrato. Deveria continuar estudando se quisesse permanecer ajudando o meu povo pois tinha somente o curso de Monitor Bilíngüe, então um acordo firmado entre lideranças e prefeituras, fiquei por um periodo de três anos sem estudar, por que na época não tinha Escola de primeiro grau à noite, somente de dia, naquela região. Como trabalhava durante o dia todo não tinha condição de ferquentar as aulas. Tinha uma Escola que funcionava mas era somente na cidade de Miraguaí e como morava distante não tinha como frequentar as aulas, até que no ano de 1993 a comuniade escolar da vila Irapuá juntamente com a comunidade Kaingang reuniram-se e construiram um documento enviando para a 21° delegacia de educação, hoje (21° CRE) Coordenadoria Regional de Educação localizada no município de três Passos RS, reenvidicando a criação do ensino supletivo de primeiro grau na Escola Estadual de 1° Grau Osmar Hermann. No mesmo ano foi homologado a criação desta modalidade, onde me matriculei e comecei a estudar durante a noite, foram mais quatro longos anos de estudos para completar o famoso 1° Grau, assistiamos as aulas na Escola Osmar Hermann e as provas eram realizadas em Três Passos, até que então no final do ano de 1996 consegui completar o 1° Grau. E no ano seguinte em 1997 foi o ano em que não quis mais trabalhar na escola, pois com o certificado de1°grau achava que poderia arranjar outro emprego melhor, engano meu. Só frustrações encontrei. A partir deste ano em 1997, saí da reserva da Guarita para trabalhar fora da aldeia, consegui um trabalho em uma empresa de vigilantes de São Leopoldo, trabalhei nesta empresa por um periodo de dois anos até que esta empresa me mandou embora do emprego no final do ano de 1999. Então resolvi voltar para minha terra que é a Guarita, e justo no ano de 2000 o governo do Estado através da 21° Coordenadoria Regional de Educação, abriu inscrição para professores temporários para as escolas indígenas do Estado do Rio Grande do Sul, então me escrevi. Como já tinha experiência fui o primeiro a ser selecionado e já me chamaram no mês de março de 2000, de volta à mesma escola onde já havia trabalhado, só que de um enfoque diferente, como a Escola Antônio Kasïn Mïg já estava atendendo o ensino fundamental completo, a direção da escola me impôs que então presidisse as aulas de cultura Kaingang para as turmas de 5°, 6°, 7° e 8° série. Trabalhei nesta escola por um periodo de dois anos, até que no ano letivo de 2002 fui transferido de escola para o setor de três soitas município de Tenente Portela, para a Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Mükëj onde trabalhei por um periodo de um ano. E neste periodo já estava cursando o magistério indígena, promovido pela Fundação Nacional do Indio e a Universídade Regional do Noroeste (UNIJUÍ). E no ano de 2003 fui convidado pelo então Antônio dos Santos Liderança responsavel pelo acampamento Agrônomia, mudando-me neste periodo para o municipio de Porto Alegre e fui morar junto aos indígenas deste acampamento. E no periodo de férias voltava à Guarita para estudar no magistério indígena, que acontecia sempre no recesso escolar e em uma ocasião quando estava em sala de aula recebi um telefonema do Sr: Zílio Salvador me informando que houvera recebido do então Prefeito Tarso Genro, o documento da Terra da Lomba do Pinheiro e neste periodo ela foi considerada Espaço de Sustentabilidade Kaingang. A partir desta conquista começa-se então uma série de reenvindicação, atendimento específico em saúde, atendimento de projetos pela FUNAI e educação escolar bilíngüe ao Estado, neste periodo foi então que a secretaria de educação através da (DPA) Divisão de Educação Porto Alegre, abriu inscrição para professor temporário para as escolas indígenas da Grande Porto Alegre. Neste peiriodo já morando na terra nova, que é a Terra indígena Fág Nhin. Com reenvidicação da liderança local que é o Sr: Antônio dos Santos o primeiro cacique aclamado pela população indígena desta terra, com a vontade de que os filhos da comunidade aprendessem a ler e escrever em nossa Língua materna, fiz minha inscrição e no ano seguinte já fui contratado para alfabetizar o meu povo. E outro fato marcante de minha vida foi a conclusão do curso de magistério indígena, que durou 5 anos. Este curso aconteceu de forma que seu curriculo fez a interlocussão voltado para a cultura Kaingang.

A UNIVERSIDADE UM COMPROMISSO
No final do ano de 2005, após ter concluido o curso de magistério indígena o meu primeiro vestibular: prestei no Centro Universitário Metodista do IPA em dezembro de 2005. Aprovado no concurso vestibular para o curso de Pedagogia em licenciatura, matriculando-me então em janeiro de 2006, comecei a cursar a faculdade de pedagogia.
Para fazer o curso de Pedagogia no IPA, eu era obrigado viajar à noite pegando sempre dois ônibus para chegar à Universidade, uma distância de aproximadamente 50 km, que é o percurso de ida e volta entre a aldeia e a faculdade que esta localizada no bairro Rio Branco em Porto Alegre.
Desde o início do curso, fazia de tudo para poder participar do maior número de atividades acadêmicas que tivessem alguma vinculação com o que eu pretendia tornar público, como por exemplo, os dois trabalhos que públiquei como artigos cientificos, cada um com títulos diferentes. Entretanto, o curso que estava fazendo era de licenciatura plena e eu comecei a perceber que o sonho inicial ficava cada vez mais distante, o que ocorreu não pelas dificuldades que sabia que teria de enfrentar para ser um bom pedagogo, mas porque o sentimento de ser professor começou a crescer. Comecei a perceber que, trabalhando como professor, teria oportunidades de contato que a outra profissão não poderia me oferecer. O marco da mudança de pensamento ocorreu em 2008, nesse ano, juntamente com uma colega de turma, Janaína Barbosa da Silva, iniciei uma pesquisa direcionada para Educação de Jovens e Adultos (EJA) a qual tinha como título “Gestão Educacional para EJA” sob a orientação da prof. Ms. Gilda Glauce Martins Alves. Nessa época, a internet foi uma grande aliada para nos auxiliar na investigação sobre o assunto, não tinha-mos computadores em casa, apenas o acesso era feito na Universidade e os computadores conectados à rede na faculdade é que era a salvação para que pudessemos realizar os trabalhos; por isso, toda a orientação era realizada através de encontros. E este trabalho foi muito gratificante pois foi ele que me direcionou e fez com que tivesse o gosto por esta modalidade, hoje com o tema em mente estou preparando uma teoria empirica voltada para a população indígena kaingang.
O objetivo da pesquisa era investigar a existência de uma teoria que suportasse os conflitos dos jovens desta modalidade. Nessa época, esse era um assunto que na área da educação formal poucos alunos pesquisadores trabalhavam; por isso, resolvemos apresentar as nossas conclusões nos nossos TCC e na feira de iniciação científica, do Campus Dona Leonor, tais como: IV e V Salão de Iniciação Científica do Seminário de Iniciação Científica e I Jornada de Pesquisa do Cento Universidade Metodista do IPA. Em todos eles, sempre tivemos uma ótima recepção pelos ouvintes, os quais questionavam se os resultados alcançados por nós eram, efetivamente, implementados, pois, segundo eles, era preciso quebrar paradigmas tanto por parte do professor quanto dos alunos para que qualquer mudança pudesse ser implementada em sala de aula. Procurávamos mostrar que se tratava de um estudo teórico, mas que, mesmo assim, alguns professores da EJA desta escola se sentiam instigados a mudar as suas práticas educacionais depois das reflexões realizadas.

O SENTIMENTO DE SER PROFESSOR
Após a formatura, que ocorreu no final de 2008, eu tinha duas opções: continuar lecionando o idioma kaingang na escola da comunidade ou assumir um cargo público na sercretaria de direitos humanos que tinha na Prefeitura Municipal de Porto Alegre que após colar grau em 23/01/2009 fui convidado para assumir esta cadeira. Optei então pela primeira opção, uma vez que já trabalhava na escola da comuniade como professor bilíngüe. Entretanto, uma vez continuando na escola indígena resolvi participar de encontros de seleção para o curso de PÓS-GRADUAÇÃO em Educação, que é o PROEJA. Através de cota que estava direcionado para indígenas nesta modalidade fui contemplado com a vaga para cursar a pós-graduação.
Lecionar Língua indígena para crianças e pré-adolescentes kaingang na escola da comunidade é uma experiência extremamente significativa. Ao conviver com pessoas simples, na sua maioria todos moradores da aldeia, obtive um aprendizado que não é normalmente passado nos bancos das universidades. Por exemplo, não é ensinado como devemos nos comportar nas situações em que a violência a descriminação afeta e influencia na aprendizagem do aluno, ou que atitudes devemos ter quando um aluno vem para a escola completamente sem saber falar a Língua portuguesa. Exatamente por problemas de linguagem. Nesta ocasião a Secretaria de Educação do Estado oferece vagas específicas para professor indígena Kaingang ou Guarani, entre os quais destaco o curso de “Formação Continuada para Professores Indígenas”. e o curso de “Atualização Pedagógica Específica”. Como deve-se buscar estas especializações? Buscando entender como os povos indígenas procedem o ensinamento cultural numa filosofia oral, e como se dá o ensino e aprendizagem com anciões das aldeias.

A PÓS-GRADUAÇÃO: UMA NOVA FASE
Em janeiro de 2009 iniciei o curso da Especialização do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEDU) da UFRGS, onde pretendo defender o meu TCC “GUFÄ AG JYKRE TU KYRÜ AG VËNHKAJRÄNRÄN ËG VÏ KI” (Perspectiva da EJA com a Educação Escolar Bilíngüe) para o ensino-aprendizagem através da cultura Kaingang e suas linguagens: modelo conceitual e estudo de caso. Já no mês de julho de 2009 ainda não tenho nenhum(a) orientador(a), aliás pretendo convidar para minha orientação a profa. Dra. Maria Aparecida Bergamschi. E todas as disciplinas estão sendo cursadas na FACED e na Escola Técnica da UFRGS.
A minha pesquisa tera dois enfoques; o primeiro será elaborar um modelo conceitual de um ambiente escolar implementado com a linguagem de aprimoramento para uso na educação escolar bilíngüe; o segundo será estudar as possibilidades do uso desse ambiente no processo de ensino-aprendizagem da Educação Escolar Bilíngüe para a EJA. Com o primeiro objetivo, pretendo desenvolver um modelo conceitual de ambientes de aprendizagem tanto para o ensino-aprendizagem da Educação Cultural Kaingang (em especial, os conteúdos culturais, costumes, tradições e as histórias ancestrais Kaingang) com isso pretende-se desenvolver os aspectos cognitivos (com base nas teorias do construtivismo), bem como implementar o modelo proposto numa perspectiva indígena, sempre fazendo um contraponto com o modelo de educação escolarizada, implantado pelo governo brasileiro.
Este trabalho pretende dar o início de um amplo diálogo sobre temas relacionados à questão da etnia Kaingang, aplicando-se não só para a Educação de Jovens e Adultos mas na totalidade da educação escolar indígena, específica e diferênciada. Pois a introdução de uma educação escolar pensada pelos próprios indígenas, para as escolas das aldeias coloca em evidência a necessidade de que é necessário refletir sobre uma série de questões, que vão desde a preparação dos jovens, dos professores, das lideranças até a compreenção da falta de recursos e discutir, portanto, um tema tão importante que é de quem dará continuidade da nossa etnia. Neste sentido, constitui-se um desafio mais amplo, de buscar os conhecimentos tradicionais indígenas e coloca-los como referências para os futuros protagonista da educação escolar bilíngüe, possibilitando quem sabe, a desmistificação dessa teoria como de ensino-aprendizagem acessecivel para este povo, e passando-a denominar-se de ( ÜN SI AG JYKRE TU KAJRÃN ).
As conclusões da pesquisa e da formulação, vai ser escrita na Língua Kaingang e a apresentação da defesa estarei realizando em Língua Portuguesa. Existe também a necessidade de ampliar e aprofundar os conhecimentos sobre o processo da educação formal e informal na construção da identidade existencial na população indígena, as formas institucionais e, a constituição de finalidades e experiências propiciam padrões de desenvolvimento satisfatórios. Dessa maneira, acredita-se que o Estado, a universidade e outras instâncias da sociedade civil são concedentes de identidade pela constituição de funções, tarefas e representações em torno dos cidadões.
A universidade tem a responsabilidade de promover estudos sobre as questões sociais emergentes, sendo a pesquisa fundamental para desvelar o potencial biopsicossocial das populações indígenas e de dar condição favorável e a inserção desta sociedade nas políticas públicas e sociais, pois desde a chegada de Universídades ou a criação de algumas no país, as tribos indígenas sempre serviram de degraus de acadêmicos, para a conquista de seus status e títulos.

A EDUCAÇÃO ENVOLVENTE E CULTURAL
Sobre a educação e alfabetização. Para mim e para meu povo, ler e escrever é uma técnica, da mesma maneira que alguém pode aprender a dirigir um carro ou a operar uma máquina. Então a gente opera essas coisas, mas nós damos a elas a exata dimensão de que têm. Escrever e ler para mim não é uma virtude maior do que andar, nadar, subir em árvores, correr, caçar, pescar, fazer um artesanato, um arco, uma flecha ou brincar com seu Jamré. Acredito que quando a sociedade indígena elege essas atividades como coisa que têm valor em si mesmo, está excluindo da cidadania milhares de pessoas para as quais a atividade de escrever e ler não têm nada a ver. Como elas não escrevem e não lêem, também nunca serão partes das pessoas que decidem ou que resolvem. E quando aceitei a aprender, a ler e escrever encarei a alfabetização como quem compra um peixe que tem espinha. Tirei as espinhas e escolhi o que eu queria como estou fazendo com os trabalhos na especialização, escolho somente aqueles que acredito ser necessário e realizo. Acho que a maioria das crianças que vão hoje para a escola e que são alfabetizadas é obrigada a engolir o peixe com espinha e tudo. É uma formação que não atende à expectativa delas como seres humanos e que violenta sua memória. Na tradição kaingang, os meninos bebem o conhecimento do seu povo nas práticas de convivência, nos cantos, nas narrativas e até mesmo na confecção do artesanato. Os cantos narram à criação do mundo, sua fundação e seus eventos e narram também às conquistas. Então, a criança está ali crescendo, aprendendo e ouvindo as narrativas. Quando ela cresce um pouquinho mais, quando ela já está aproximadamente com dose ou quinze anos, aí então ela é separada para um processo de formação especial, vai ser orientado, em que os velhos, os caciques, vão iniciar essa criança na tradição cultural. Então, acontecem às cerimônias que compõem essa formação e os vários ritos, que incluem gestos e manifestações externas. Por exemplo, você fura a orelha. Toma banho com remédio. Dependendo de qual metade tribal a que você pertence, Kamë ou kajru você ganha sua pintura corporal, seu paramento, que vai identificar sua metade tribal Rá téj ou Rá ror, seu clã e seu grupo de guerreiros. Esses são os sinais externos da formação. Os sinais internos, os sinais subjetivos, são a essência mesmo daquele coletivo. Então você passa a compartilhar o conhecimento, os compromissos e o sonho do seu povo. As grandes festas se constituem em instantes de renovação permanente do compromisso de andar junto, de celebrar a vida, de conquistarem as suas aventuras. Então a nossa cultura consiste, de maneira resumida, nesses eventos. A formação é isso.
Procurei destacar os elementos que marcaram as quebras de paradigmas, por coerências e incoerências e por meio das relações estabelecidas com o mundo cultural, que possibilitaram a construção da minha vida profissional. Além de considerar este memorial auto-avaliativo eu acredito que ele acaba se tornando um instrumento confessional de meus sonhos.

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL - UFRGS
ZAQUEU KEY CLAUDINO
MEMORIAL
PROFESSOR: RAFAEL ARENHALDT
POA – UFRGS
2009/2

Memorial de Karina Gomes Vogel


Eu, por eu mesma.

“Os prazeres e frustrações de se tornar educador”

“Pode seguir a sua estrela, o seu brinquedo de “star”, fantasiando segredos, de onde quer chegar,(...) quem vem com tudo não cansa...” (CAZUZA, Bete Balanço.)

Bom, então é chegada a hora que tanto posterguei, sei lá inúmeras vezes na vida pensei sobre isso, e as dores que causaram não foram boas o suficiente pra elaborar o parto das idéias... não nego, fugi, por muito até me deparar com certas verdades que neguei para mim e sobre mim até hoje.
Sempre me achei uma insatisfeita com a realidade posta, questionando tudo e todos, negando o que me era obrigado. Ao menos era o que acreditava ser importante, que os outros pensassem sobre mim. Grande deboche!Grande piada!
Quem disse que eu tinha de ser isso ou aquilo? Nunca aceitei ter que fazer o que os outros queriam! Grande piada outra vez.
Passei uma infância dizendo que queria ser médica, brincava com as bonecas, lhes enchia a “bunda” de agulhas roubadas da mãe, fazia curativos nos cachorros e gatos da vizinhança doentes, tratava dos furúnculos da minha mãe... Adorava um sangue, curtia o seriado plantão médico nas madrugadas com uma grande amiga, ao qual nutríamos juntas, o “sonho da medicina”.

“ Os sonhos vêm e os sonhos vão, o resto é imperfeito.”(DADO VILLA –LOBOS/RENATO RUSSO /MARCELO BONFÁ, Há tempos.)

“Ideologia, eu quero uma para viver...” (CAZUZA, Ideologia.)

Então o tempo foi passando, mudei de escola, fui para uma escola estadual, lá descobri que muitas coisas não eram bem do jeito que eu pensava, vi iniciar um distanciamento do meu sonho de ser médica, mas não aceitei existir de verdade tais problemas. Segui a vida. Nessa nova escola cursei da 7ª série até o 3ªano do ensino médio. Aqui fui experimentado novas vivências, novos gostos, outras possibilidades. Comecei a ter aula de filosofia, psicologia e sociologia. Sempre gostei de ler e escrever, achava isso realmente fascinante, que diferenciava as pessoas. Vinculava-me, razoavelmente bem em português e literatura. Mas minha paixão era a biologia, genética, organismos, como as coisas funcionavam... era realmente delicioso saber que existia algo que explicava o como e o porque que as coisas eram daquele jeito, as explicações faziam todo o sentido. Até que, começava a pensar nas pessoas, o que sentem, porque escolhem isso ao invés daquilo, porque se julgam, se diferem, se agridem, rezam, matam, lutam ou nada fazem e também os que se fazem. De vítima, de morto, de espertos, de burros, de coitados, e os que fazem os outros pensarem, sobre o mundo, sobre as leis, quem inventa elas e o por quê ? Isso nenhuma matéria explicava, não direito, só “brexinhas” em história, geografia, biologia e química. Até que ela surgiu, a filosofia, nada mais foi igual para mim, aquele tal de Sócrates era demais e a minha professora que lecionava também a psicologia e sociologia era tudo. Sabia tudo, engraçada, engraçadíssima, irônica, irreverente, debochada, agressiva, mas sabia cativar. Eu a amei, desde o momento em que mostrou pensar, pensar sobre as coisas, e de forma diferente dos outros.

“Não vá embora, fique um pouco mais, ninguém sabe fazer o que você me faz , é exagero, pode até não ser o que você consegue ninguém sabe fazer.” (DADO VILLA –LOBOS/RENATO RUSSO /MARCELO BONFÁ,Teorema.)

“Só sei, que nada sei.” (SÓCRATES)

“Eu só sei dizer que eu não sei nada de você, e eu só quero dizer não sei muito de mim também.”( HERBERT VIANNA, Eu não sei nada.)

Mas, veio o teste vocacional, o terceiro ano, a preparação para o vestibular, um ano sem filosofia, doeu, mas o teste vocacional não falha nunca, e lá estava registrado: ciências biológicas 100%, humanas 98% e artes 89%. Eu, tive todas as certezas, seria médica. Fui experimentar o vestibular, tomei bomba no segundo dia, matemática e não fui mais fazer as provas, claro, não sozinha, junto com minha amiga inseparável que também tomou bomba, quando minha mãe descobriu quis nos matar. Maldita correspondência da UFRGS de desempenho.
Bom, o ano foi passando fiz cursinho pré-vestibular intensivo, de 5 meses, fiz vestibular no outro verão e tomei “pau” novamente, minha mãe quase foi a loucura e a internação psiquiátrica novamente, e para amenizar a desgraça prestei vestibular para outra faculdade, no objetivo de que no próximo verão tentaria novamente medicina. Minha família queria que eu fizesse pedagogia, respondi que nem por decreto lei seria professora, não gostava de crianças e não daria aula. Definitivamente não! Nem que fosse por um ou dois semestres. Me escrevi para Filosofia, para o desespero completo da minha mãe, dizia ela: “- O que se faz com filosofia?” , “- Como se chama quem faz isso?”
Prestei o vestibular, passei, comecei a cursar, crente que naquele próximo verão faria vestibular para medicina. Não aconteceu.
Já era tarde de mais, estava apaixonada, amor que neguei por preconceito e aceitação da sociedade. Na primeira aula de introdução à filosofia fiquei transtornada, era bom demais para parar.

“Não, eu não posso negar, não adianta disfarçar, agora você me prensou contra a parede. Eu não passava por aí por acaso. Não, eu não olhava pra você por acaso. Eu sempre quis você. Se eu não me fiz entender não foi por mal não foi por nada, nada foi por acaso.” (GRESSINGER, Nada foi por acaso.)

Então me enganei, e segui me enganando e aos outros também sobre fazer medicina, mas já dizia que tentaria vestibular só após o fim do curso. E fui indo, me deliciando com tudo o eu descobria, de mim, de Deus?, dos outros, e de tantas coisas que eu pensava e também outro alguém a mais de 2000 anos pensava, ou no século retrasado. E surgia a pergunta: “-Como em uma época tão pouco esclarecida podia se produzir pessoas que pensavam tão diferente?”. Mas, realmente aqui começaram a surgir dois verdadeiros amores: a ética que me fascinou em, sem pudores, todos autores ao qual fui apresentada até então, e a filosofia com crianças. A primeira trazia-me calma, saciava aquela angústia de entender, frear e reprimir o animal homem, em sua ganância e maldade sem limites. E a outra um prazer até então esquecido lá na infância de mostrar o porque nós seres humanos nos diferenciamos dos demais seres, pois perguntamos, formulamos meios intelectuais de respondermos ou adquirirmos respostas as nossas dúvidas.
Conheci nesta época duas colegas de faculdade que faziam curso de extensão na PUC com o professor Sérgio Augusto Sardi em Filosofia com Crianças, que partia do princípio de que a criança, indivíduo, tem seus raciocínios e elaborações filosóficas, não apenas perguntas com objetivos fixos que morrem na resposta desses. Foi um casamento, de pensamentos, idéias que antes estavam guardadas em mim, e como se mais alguém conseguisse pensar o que eu pensava.
Fiz dois módulos do curso na PUC, e meu trabalho de conclusão de curso: “Possibilidades de se Filosofar com Crianças”. Enquanto o último ano de faculdade corria precisávamos de um local para “aplicarmos” nossas teorias e práticas. Conhecemos através de uma amiga a Casa de reabilitação Marta e Maria, para dependentes de drogas, uma população em sua maioria de jovens mulheres de 11 a 19 anos mas, sua grande maioria tinham idades de 13 a 14 anos. Foi muito positivo, claro que era uma população a margem, com suas especificidades, dificuldades de aprendizagem devido a dependência e o período de abstinência, a falta de escolaridade, ou analfabetismo completo, pobreza, prostituição e demais problemas que aqui não cabem ser falados, mas foi bom. Lá trabalhei como voluntária por 03 anos, com encontros semanais, foi bastante gratificante, para ambos os lados perceber como é possível mostrar outras possibilidades de vida e caminhos indivíduos. Ali comecei a compreender qual era o meu caminho, educar, mostrar outras possibilidades e apreender sobre vidas que não vivi, mas que ao conviver acabo por fazer parte e elas, parte de mim.

“Quando o sol bater, na janela do teu quarto, lembra e vê que o caminho é um só. Por que esperar se podemos começar tudo de novo, agora mesmo, a humanidade é desumana mas ainda temos chance, o sol nasce para todos.” (DADO VILLA –LOBOS/RENATO RUSSO /MARCELO BONFÁ, Quando o sol bater na janela do teu quarto.)

Durante toda a faculdade, trabalhei, pois precisava ajudar a minha família a pagar meus estudos, no início trabalhava em um supermercado de bairro por quase um ano, pedi demissão para iniciar estágio na Prefeitura de Viamão.

“Nunca me deram mole, não (melhor assim). Não sou a fim de pactuar (sai pra lá). Se pensam que tenho a mãos vazias e frias (melhor assim). Se pensam que minhas mãos estão presas (surpresa). Mãos e coração livres e quentes: chimarrão e leveza.” (GRESSINGER Ilex Paraguariensis.)

No arquivo histórico, na secretaria de cultura, que foi uma possibilidade de me aproximar um pouco mais da vida em sala de aula. Fazíamos passeios guiados aos pontos turísticos do município com diferentes escolas. Também fiz pesquisa de campo para a construção do inventário participativo do município, com busca de fontes históricas entre moradores e junto a outros museus. Este estágio perdurou até o meu penúltimo semestre de faculdade, já na reta final fiquei fazendo uns bicos de balconista em uma vídeo-locadora de uma pessoa conhecida. Mas esse item financeiro, acho um tanto inconveniente e não mudará muito a situação em que me encontro profissionalmente. Já passou, e o financiamento estudantil está pago.
O final da faculdade veio com medo e receio, medo de encontrar emprego, emprego na minha área e me sustentar. Foi um período inconveniente, de dúvidas.
Trabalhei enfim em um centro infantil, por cinco meses apenas mas mesmo com todas as dificuldades foi maravilhoso, primeiro pela oportunidade de trabalhar com educação, segundo por poder trabalhar com o projeto a qual defendi ao fim do curso, filosofia com crianças, e terceiro o quanto gratificante é fazer algo que se gosta, se acredita. Criei vínculos com as crianças, estabelecemos relações fortes, e quando parecia que as coisas estavam se acomodando, prestei seleção para professor substituto no Colégio de aplicação da UFGRS e passei. Isso sem sombra de dúvidas foi o céu. Me despedi dos meus pequenos, com dois corações, mas sabia que era o melhor para mim. Continuei a visitá-los por mais três meses.

“A dona aranha subiu pela parede, veio a chuva forte e a derrubou, já passou a chuva e ela vai contente, sobe, sobe, sobe dona aranha. A dona aranha subiu pela parede veio novamente a chuva e a derrubou. Já passou a chuva. Ela é teimosa e persistente sobe, sobe, sobe dona aranha, sobe, sobe, sobe e continua a subir.” Paralenda popular.

O colégio de Aplicação.

Não quero ser romântica, nem trouxa, mas acredito na educação que se propõem este estabelecimento. Sei que nada é perfeito, que existem correntes de pensamentos, posições demarcadas, mas o pensar escola e as propostas dadas a quase todos os problemas ali enfrentados são realmente como penso que deveria ocorrer no espaço escola. Em primeiro lugar, acho que sim, a escola deve estar além de um espaço aonde se assiste à aula e se vai embora, deve ser um lugar para vincular o indivíduo, também aluno com a escola, que nesta escola se aprenda além das disciplinas, mas se aprenda a se mover para a vida. Que se cruze diariamente a pesquisa, o novo, o aluno, o professor, as pessoas que eles representam, a escola e a sociedade. E no Aplicação por diversas vezes vi e vivenciei este processo ocorrendo. Não quero santificar ninguém nem a instituição que o CAP representa, mas lá existem condições incomparavelmente melhores de se pensar escola, escola pública e de qualidade. Pensar que deve haver tempo para a dedicação exclusiva do professor, que este deve fazer pesquisa, escrever sobre suas práticas, se relacionar com seus alunos em níveis diferentes, pensar em laboratórios de reforço escolar, laboratórios para todas as disciplinas, pensar em educação interdisciplinar, enriquecimento curricular, tempo para os professores se reunirem por áreas, se reunirem todos e terem tempo para correção de trabalhos e elaboração dos planos de aula, realmente até hoje só vi lá.
Para mim filosofia tem função de pensar, questionar, não aceitar o que está posto é mostrar para os alunos que devem e podem pensar por conta própria, por em xeque tudo o que se põe como verdade.

“Quando nascemos fomos programados a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados dos USA, de 9 às 6. Desde pequenos nós comemos lixo comercial e industrial. Mas agora chegou a nossa vez , vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês.”( DADO VILLA –LOBOS/RENATO RUSSO /MARCELO BONFÁ,Geração Coca-cola.)

Fiquei no Aplicação por dois anos onde lecionei filosofia para o ensino fundamental e médio, fiz projetos com a parceiros voluntários, com o projeto jovem cientista do futuro, enriquecimento curricular, jornal estudantil, trabalhos interdisciplinares, educação de jovens adultos. Foi um período rico de aprendizados e escolhas, do que e porque ser educadora. Fiz as pazes comigo mesma, aceitei minha escolha de ter abandoado o sonho de ser médica.

“É só você quem deve decidir o que fazer pra tentar ser feliz” (Teorema.)

Mas, tudo é eterno enquanto dura, e esse período acabou. Ficaram as experiências, as amizades, as construções de vínculos com os alunos, as experiências de sala de aula, minhas vitórias, meus desastres, importantes para traçar um futuro com menos erros.

“Niente di cio che verrà domani sarà com’é già un’onda come il marein um va e viene infinito” (LULU SANTOS,/MASSIMILLIANO DE TOMASSI , Come fa un’ onda.)

Guardo a riqueza das vivências em sala de aula, de como pode ser próxima a ação, ato de aprender, ensinar, educar, acho que no fundo sempre entendi este processo como amizade, carinho, amor, sei que é uma profissão, que devemos nos cobrar como profissionais, mas para mim vale mais também é realização, dedicação e crença no ser humano e o que se pode atingir ou mudar com a educação. Eu, me transformei, fiquei mais humana, mais gente, e luto pela boniteza das pessoas e de suas ações.

“Vamos consertar o mundo, vamos começar lavando os pratos, nos ajudar uns aos outros, me deixe amarrar os seus sapatos.” (HERBERT VIANNA, Vamos viver.)

Durante este tempo também trabalhei em outros ambientes escolares, mas nem de longe fui tão realizada, nestas escolas particulares experimentei a realidade comum do ensino, a falta de importância com a disciplina de filosofia, o preconceito com os docentes dessa área, o descaso com a carga horária, com a qualificação dos que ministram as aulas, o que os estabelecimentos de educação esperam da disciplina de filosofia, ou melhor, o que não esperam.

“Veja, não diga que a canção esta perdida tenha fé em Deus, tenha fé na vida tente outra vez.” (RAUL SEIXAS, PAULO COELHO, MARCELLO MOTTA, Tente outra vez.)

Sem contar com os horripilantes relatos e constatações de que, quem tem o poder dentro das escolas particulares são pais e alunos, isso sem contar nos momentos em que somos chamados para a realidade com a frase: “-Sou eu quem pago o seu salário.”, “- A minha mesada é maior que o seu salário.” Ou a pior que eu ouvi até hoje: “ -Vê se por aqui, não tem mais um pontinho na nota dele.” , uma linda fala de uma coordenadora pedagógica observando o livro de chamadas, se referindo a um aluno que em nenhum momento tinha condições de passar de ano na minha disciplina, como em outras, simplesmente por que não queria mais estudar, estava aderindo ao movimento: “ sou rebelde, e a escola e os professores que sofram as conseqüências” , já que os pais tinham dinheiro e podiam sem problema sustentar ele e suas condutas extremamente desagradáveis.

“A verdade passa ao largo, como se não existisse. E a gente ali no meio, como se não existisse. Tudo se reduz a uma cruz e a uma espada. Tchê, de que lado tu estás? Ninguém pode agradar os dois lados.” (GRESSINGER,Vícios de linguagem.)

Ao final do período dos dois anos que lecionei no colégio de aplicação fui chamada para assumir a vaga no concurso para monitor da FASE/RS (Fundação de Atendimento Sócio Educativo do Rio Grande do Sul), ao qual quando passei, jurei que não assumiria, por não acreditar no trabalho lá desenvolvido. Tinha relatos bem contundentes para não fazer a investidura do cargo, mas precisava de emprego e assumi. Fui chamada para começar a trabalhar em uma unidade nova, que estava e vias de ser inaugurada, tendo muito receio o visto brevemente o trabalho em outras unidades por três meses iríamos assumir a nova unidade, para adolescentes de primeiro ingresso oriundos apenas das cidades vizinhas e de onde a unidade estava instalada. Enfim, não lá assumi, comecei meu trabalho como monitora, na última casa de passagem para adolescentes no cumprimento de medidas sócio educativas, entenda-se a unidade de maior segurança, para adolescentes que não aceitaram positivamente nenhum outro trabalho de reeducação social e que por gravidade de seus delitos, reincidência dos mesmos ou agravamento de perfil, chegam nesta unidade. Ao invés de iniciar trabalho em uma casa de ingresso, fui trabalhar em uma casa de contenção.

“Quero me encontrar, mas não sei onde estou, vem comigo procurar algum lugar mais calmo, longe dessa confusão, e dessa gente que não se respeita, tenho quase certeza que eu não sou daqui.” (DADO VILLA –LOBOS/RENATO RUSSO /MARCELO BONFÁ,Meninos e meninas.)

Tudo isso é muito pessoal, mas meu primeiro dia de trabalho, individual, ao qual já me sentia mais segura e capaz, foi para cuidar de uma aula, por ironia do destino de filosofia. Naquele dia percebi que aquele realmente não era o meu lugar. Fiquei um ano nesta unidade.

“Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo, prefiro acreditar no mundo do meu jeito, e você estava esperando voar, mas como chegar até as nuvens com os pés no chão?” (DADO VILLA –LOBOS/RENATO RUSSO /MARCELO BONFÁ,Eu era um lobisomem juvenil.)

Trabalhando com meninos, desempenhando diversas atividades, me propus a diversas coisas, oficinas de artesanato, leitura, auxilio na limpeza e decoração da alas em dias de festa. Mas nada realmente gerava muito efeito. E isso realmente me levava a uma decepção profunda. Por situações que acho desnecessárias elencar, consegui transferência para a única unidade feminina de trabalho sócio-educativo.

“Quando o sol bater, na janela do teu quarto, lembra e vê que o caminho é um só. Por que esperar se podemos começar tudo de novo, agora mesmo, a humanidade é desumana, mas ainda temos chance, o sol nasce para todos.” (DADO VILLA –LOBOS/RENATO RUSSO /MARCELO BONFÁ, Quando o sol bater na janela do teu quarto.)

Enquanto funcionária da FASE, sempre quis trabalhar nesta unidade, CASEF (Centro de atendimento Sócio Educativo Feminino), mas me disseram que para lá, eu não iria. Enfim fui e lá tudo, ou melhor, quase tudo que eu desacreditava, com relação ao trabalho sócio-educativo se mostrou possível. Hoje faz cinco anos que sou funcionária da FASE, nossa unidade quatro, e descobri ou seria mais acertado dizer redescobri que só é possível educar ou reeducar alguém tendo respeito, vínculo, liberdade, confiança, crença, e permitindo oportunidades que rompam com o que já está posto. Que o processo de educação, de educar é um ato bipartido que move educador e educando, em um caminho sem volta ao crescimento pessoal e do indivíduo humano.

“Baby, compra o jornal e vem ver o sol ele continua a brilhar apesar de tanta barbaridade. Baby, escuta o galo cantar a aurora dos nossos tempos não é hora de chorar amanheceu o pensamento” (FREJAT/DULCE QUENTAL, O poeta está vivo.)

Hoje no CASEF, trabalho com um projeto de arte reciclagem que atende cinco adolescentes, que busca estimular e desenvolver um olhar diferenciado das adolescentes sobre o entorno e os “dejetos” produzidos pela sociedade, e pelo impacto do consumo em larga escala. Bem como desenvolver a conscientização ambiental aliada a uma preparação profissional das adolescentes em busca de trabalho individual ou associativo, com claras possibilidades de gerar sua própria renda e a busca por uma atividade futura, rentável e possível. Que através da arte, do artesanato busquem se abrir para uma mudança de posturas e de atitudes éticas e sociais.

“E mesmo que pareça tolo e sem sentido ainda brigo por sonhos, eu ainda brigo.” (HERBERT VIANNA, Flores e espinhos.)


Acho realmente que o trabalho executado pela equipe do CASEF e por mim, realmente é importante, sério e gera mudanças, mas que há nestes termos muito ainda para se construir, mudar e aprender com relação ao trabalho de atendimento sócio-educativo, aos adolescentes em conflito com a lei, em cumprimento de medidas de privação de liberdade integral ou parcial. Mas já executamos alguns passos.
Sobre o que penso atualmente da minha postura como educadora e do meu futuro é que caminho em uma formação contínua, não penso parar de estudar, apreender, e que este crescimento reflete naqueles a quem e com quem trabalho, pretendo efetuar, melhoras na forma de educar do CASEF, em parceria com outros funcionários lá, conseguirmos implantar cursos de formação de qualidade e mostrar que a mudança é possível para quem na vida já esteve tão longe do que é conviver em equilíbrio com a sociedade.

“Para que perder tempo desperdiçando emoções, grilar com pequenas provocações, ataco se for preciso sou eu quem escolho e faço os meus inimigos. Saudações a quem tem coragem.” (DÉ/FREJAT/GUTO GOFFI, Pense e dance.)

Já desejei sair da FASE, como também já desejei não ter ingressado, fiz concurso para professora do estado, passei e não fui chamada, só para o contrato emergencial, não quis assumir, também quero segurança, ainda que pouca, uma estabilidade ainda que falsa. Hoje tenho plena consciência de que minha realização profissional é na educação, mesmo sabendo que a remuneração não condiz com a importância da atividade, mas para mim não será a primeira vez que deixarei um emprego, para ganhar menos mas acreditando que a recompensa será maior. Mais a frente quero fazer mestrado e doutorado, até lá verei o que o tempo e as minhas escolhas me guardam.

“Se tu quiseres saber quem eu sou... me dá tua mão, vem viver, vem lutar lado a lado, me dá tua mão me protege e terá proteção minha mão ... meu irmão” (GRESSINGER,Lado a lado.)


Ofereço este pequeno mexer nas lembranças e sentimentos aos que me deram força de continuar lutando pela educação e por um mundo melhor. Em memória ao saudoso e ético professor padre Anúncio Caldana, a professora e avó Maria do Carmo Granella.
E a Aninha, luz do meu dia, a quem desejo que o futuro seja um tempo melhor, pelas escolhas que nós educadores e cidadãos tomamos hoje.